
J.G.de Araujo Jorge
Amo a terra!
Amo o sol! Amo o céu! Amo o mar!
Amo a vida! Amo a luz! Amo as árvores! Amo
a poesia que escrevo e entusiasta declamo
aos que sentem como eu a alegria de amar!
Amo a noite! Amo a antiga palidez do luar!
A flor presa aos cabelos soltos de algum ramo!
Uma folha que cai! Um perfume no ar
onde um desejo extinto sem querer inflamo!
Amo os rios! E a estranha
solidão em festa,
dessa alma que possuo multiforme e inquieta
como a alma multiforme e inquieta da floresta!
Laercio Bruno
Um amor desses de filme assim,
Deus deu pra mim, muito terno pra sempre!
Amor desse nosso jeito
Será história, com glória eternamente!
Amor de montão de beijos!
Amor de montão de abraços!
Amor de compreensão, de acalento!
Amor que leva embora, todos nossos cansaços!
Nosso amor é muito grande, é infinito.
De todos é
o mais bonito!
Nosso amor vai longe, vai pro sul, vai pro norte!
Nosso amor é infinita sorte!
E graças te dou todo dia,
Por este amor abençoado!
Põe de pé, é encanto,
É melodia!
Nosso amor é pura poesia!
Mírian
Warttusch
Quando me
aqueces no aconchego louco
Me pergunto se "tudo" não é ainda "pouco"!
Devassas horas de sofreguidão e insanidade,
Ardentes corpos fundindo-se na eternidade!
Amante tão viril me tocas, me possuis,
Olha-me toda com olhos tão azuis...
Mas quando fechas teus olhos destemidos,
É porque desmaiamos na dor destes sentidos
Que nos consomem de gozo, sem piedade,
Nesta entrega de total leviandade...
Não te contentes, por favor, não vá embora...
Fica um pouco mais, ardamos nesta hora...
Sobram ainda minutos, eu quero te sentir...
Me tenhas de novo... depois, podes partir...
Jenário de
Fátima
Não
brinque com amores virtuais
Eles são como todos os amores,
Provocam as mesmas mágoas, mesmas dores
Daqueles que chamamos de normais.
Estes porém machucam ainda mais,
Pois nunca se dividem os cobertores,
Dos beijos não se provam os sabores,
Nem vão-se pelos ímpetos carnais.
Mesmo assim, quando este amor se acaba
Os dias perdem o brilho, a alegria,
Parece que ao redor tudo desaba.
E a solidão ao cúmulo se revela;
Chorar-se um frágil amor que só se havia,
Na fina transparência de uma tela.
Carlos Drummond
Eu te amo
porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é
dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo
porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é
primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Mário Quintana
Por favor não me analise,
Não fique procurando cada ponto fraco meu,
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro, carente,
Todo cheio de marcas que a vida deixou.
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese,
É uma integração de dados,
Não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
Ninguém consegue abraçar um pedaço,
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeito, amor.
Jenario de Fátima
O meu amor é algo complicado,
Pois é engenhoso, insubmisso, astuto.
É um segredo ainda não revelado
É um mistério vago, irresoluto.
O meu amor não fica emocionado,
Ao descompasso que do peito escuto
É um diamante ainda não lapidado
É feito a jóia, quando em estado bruto.
E este amor que tanto desconheço,
Que ora me eleva, ora me subestima
Por qual me alegro e por qual padeço
Que me derrota, ou que me põe por cima
É o sentimento o qual pago o preço
De ficar horas para achar-lhe a rima.
J.G. de Araújo Jorge
Eram
beijos de fogo, eram de lavas,
e sabiam a sonhos e
ambrosias.
Como pensar que a
boca com que os dava
era a mesma afinal
com que mentias?
Se eras as mais
humilde das escravas
em dádivas, anseios,
alegrias,
- como prever que o
amor que me juravas
seria mais uma das
tuas heresias ?
Como supor ser tudo
um falso jogo?
E crer que se
extinguisse aquele fogo
que acendia em teus
olhos duas piras?
E descobrir, - no
instante em que me amavas,
que em tua boca
ansiosa misturavas
ao mesmo tempo beijos
e mentiras ?
Eram brancas as mãos,
brancas e puras,
mãos de lã, de
pelúcia, mãos amadas...
Como prever, vendo-as
fazer ternuras,
que nas unhas traziam
emboscadas ?
Era tão doce o
olhar... em conjeturas
felizes, e em
promessas impensadas...
Como enxergar,
portanto, as amarguras
e as frias traições
nele guardadas ?
Como pensar em duas,
se somente
uma eu tinha em meus
braços, e adorava,
e a outra, - uma
impostora, - se mantinha ausente.
E, afinal, como ver,
nessa alegria,
que o amor que tanta
Vida me ofertava
seria o mesmo que me
mataria ?
( Poema de JG de
Araujo Jorge
extraído do livro Epera- 1960 )
Cruz e Souza
Abre a
boca mordaz num riso convulsivo
Ó fera sensual, luxuriosa fera!
Que essa boca nervosa, em riso de pantera,
Quando ri para mim lembra um capro lascivo.
Teu olhar dá-me febre e dá-me um brusco e vivo
Tremor às carnes, que eu, se ele em mim reverbera,
Fico aceso no horror da paixão que elegera,
Inflamada, fatal, dum sangue rubro e ativo.
Mas a boca produz tais sensações de morte,
O teu riso, afinal, é tão profundo e forte
E tem de tanta dor tantas negras raízes;
Rigolboche do som, ó flor pompadouresca!
Que és para mim, no mundo, a trágica e dantesca
Imperatriz da Dor, entre as imperatrizes!
Casimiro de
Abreu
Como estás
hoje zangada
E como olhas despeitada
Só pra mim!
- Ora diz-me: esses queixumes,
Esses injustos ciúmes
No têm fim?
Que pequei eu bem conheço,
Mas castigo não mereço
Por pecar;
Pois tu queres chamar crime
Render-me à chama sublime
Dum olhar!
Porventura te esqueceste
Quando de amor me perdeste
Num sorrir?
Agora em cólera imensa
Já queres dar a sentença
Sem me ouvir!
E depois, se eu te repito
Que nesse instante maldito
- sem querer -
Arrastado por magia
Mil torrentes de poesia
Fui beber!
Eram uns olhos escuros
Muito belos, muito puros,
Como os teus!
Uns olhos assim tão lindos
Mostrando gozos infindos,
Só dos céus!
Quando os vi fulgindo tanto
Senti no peito um encanto
Que não sei!
Juro falar-te a verdade...
Foi decerto - sem vontade -
Que eu pequei!
Mas hoje, minha querida,
Eu dera até esta vida
Pra poupar
Essas lágrimas queixosas,
Que as tuas faces mimosas
Vêm molhar!
Sabe ainda ser clemente,
Perdoa um erro inocente,
Minha flor!
Seja grande embora o crime
O perdão sempre é sublime
Meu amor!
Mas se queres com maldade
Castigar quem - sem vontade
Só pecou;
Olha, linda, eu não me queixo;
A teus pés cair me deixo...
Aqui ' stou!
Mas se me deste, formosa,
De amor na taça mimosa
Doce mel;
Ai! Deixa que peça agora
Esses extremos d'outrora
O infiel:
Das brisas do sul;
Prende-me... nesses teus braços
Em doces, longos abraços
Com paixão;
Ordena com gesto altivo...
Que te beije este cativo
Essa mão!
Mata-me sim... de ventura,
Com mil beijos de ternura
Sem ter dó
Que eu prometo, anjo querido,
Não desprender um gemido,
Nem um só!
Cora
Coralina
Ajuntei todas
as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
Oriza
Martins
Deixei de
ouvir os sons do arrebol,
E o aroma das flores de apreciar,
De curtir áureos tons do pôr-do-sol,
Deixei. Por ti deixei... de tanto amar.
Olvidei de
tanta crença, sonhos tantos,
Que me afastei de muita paixão antiga:
Leituras, preces, meditação, seus encantos,
Além da poesia – companheira e sempre amiga...
E se, de
tanto amar, a tanto renunciei,
Quero crer que posso hoje, sem amarras, comentar
O sonho equivocado de que enfim eu despertei,
Sufocante, egoísta e sedutor... de tanto amar.
J.G.de
Araujo Jorge
Essa boca, pequena, e assim vermelha,
que ao botão de uma rosa se assemelha,
- quanta vez provocava os meus desejos
desabrochando em flor entre os meus beijos...
Essa boca, pequena e mentirosa,
que diz, tanta mentira cor-de-rosa,
- era a taça de amor onde eu saciava
toda a ansiedade da minha alma escrava ...
Beijando-a, compreendia que eras minha...
Meu amor transformava-te em rainha,
teu amor me fazia mais que um rei...
Agora, tu fugiste... E eu sofro, quando
vejo um outro em teus lábios desfolhando
a mesma rosa que eu desabrochei!...
Telma
L.Moreira
És estátua talhada em cedro nobre...
Tens a forma solitária de mulher...
Moldada e gravada pelo artista pobre...
Que sonha na vida o que quer!
Trazes esculpida em teus traços...
A imaginação fértil do seu criador...
Tens beleza dos pés aos braços...
Retratada por obra de um sonhador...
Apaixonei-me por ti...estatueta!
E ver-te assim, tão perfeita...
Provocaste inconfessável inveja...
Por perpetuaste em tua nua imagem
Sensualidade, audácia, coragem...
Aos olhos de quem te veja!
Pablo Neruda
Repousa com
teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalho, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido...
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos...
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo, só tu.
Sempre viva. sempre
sol ... sempre lua...
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo...
teus olhos se fecharam como
duas asas
cinzas, enquanto eu sigo a água
que levas e me leva.
A noite... o mundo... o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho...
Maraína
Bastos
Quando
escrevo, eu me excito
Só, de amor, pensar em ti...
Sinto as entranhas ardendo,
Vou com prazer remoendo
O que contigo vivi.
Ondas de
calor me afagam,
Sofro a dor dos desejos.
E cada verso transpira
A excitação que me inspira
A buscar mais por teus beijos.
Cada poema
que faço
É como amor fazer:
Tomar-te em mim, amado,
Sentir teu corpo adorado
Penetrando em meu querer...
Rolam as
letras que traço
Como rolamos nós dois...
E permanecem mostrando,
Nosso prazer expressando
Antes, durante... e depois...
Pablo Neruda
Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.
Elas brigam por aquilo que
acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.
Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao medico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando suas crianças
adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversario ou um novo casamento.
Casimiro
de Abreu
Nas
horas ardentes do pino do dia
Aos bosques corri;
E qual linda imagem dos castos amores,
Dormindo e sonhando cercada de flores
Nos bosques a vi!
Dormia
deitada na rede de penas
- O céu por dossel,
De leve embalada no quieto balanço
Qual nauta cismando num lago bem manso
Num leve batel!
Dormia e
sonhava - no rosto serena
Qual um serafim;
Os cílios pendidos nos olhos tão belos,
E a brisa brincando nos soltos cabelos
De fino cetim!
Dormia e
sonhava - formosa embebida
No doce sonhar,
E doce e sereno num mágico anseio
Debaixo das roupa batia-lhe o seio
No seu palpitar!
Dormia e
sonhava - a boca entreaberta
O lábio a sorrir;
No peito cruzados os braços dormentes,
Compridos e lisos quais brancas serpentes
No colo a dormir!
Dormia e
sonhava - no sonho de amores.
Chamava por mim,
E a voz suspirosa nos lábios morria
Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia
De algum bandolim!
Dormia e
sonhava - de manso cheguei-me
Sem leve rumor;
Pendi-me tremendo e qual fraco vagido,
Qual sopro da brisa, baixinho ao ouvido
Falei-lhe de amor!
Ao
hálito ardente o peito palpita...
Mas sem despertar;
E como nas ânsias dum sonho que é lindo,
A virgem na rede corando e sorrindo...
Beijou-me - a sonhar!
O verbo amar
J.G. de Araújo Jorge
Te amei: era de longe
que te olhava
e de longe me olhavas
vagamente...
Ah, quanta coisa
nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.
Te amava:
como inquieto adolescente,
tremendo ao te
enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse
mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.
Te amo: e
ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse
amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...
Te amar: é
mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o
repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!
Oriza
Martins
Esta chama
voraz que arde em meu peito
Me atordoa, me embala, me agita no leito,
Em pseudos e doces espasmos de dor...
É dor saborosa, que leva à loucura,
Que acalma, aquece, entorpece, tortura,
Insolentes e castos eflúvios de amor...
Que são
estas ondas tão incoerentes,
De sons e de cores, fortes, envolventes,
De tantos sabores paradoxais?
Serão os sentidos que estão me enganando,
Ou apenas os sonhos que vão me embalando,
Em meus dias maduros... tristes... outonais?
Confesso...
... é o grito, o brado, o clamor, a explosão,
Louco sentimento mesclado em paixão,
Que sinto por ti e é tão delirante...
Que só se acalma quando adormeço
E do mundo, da vida, das dores esqueço,
No pouso encantado de teu peito amante...
Oriza
Martins
Quantos
secretos desejos
Cruzam-se por nosso
olhar...
É uma paixão
incontida,
Clandestina,
proibida,
Difícil de
disfarçar...
O encontro de nossas
vidas
Tardou a acontecer...
Resultou em
sentimentos
Mergulhados em lamentos,
Razão do meu padecer.
Eu sinto que tu me
amas,
Sabes o bem que te
quero...
Mas o ingrato destino
Transformou em desatino
Este amor forte, sincero...
Motivos
mil nos separam,
Sufocam quaisquer
anseios...
Em nossos mundos
distintos
Sublimamos os
instintos,
Nos amando em
devaneios...
São beijos emocionantes,
Trocados em
pensamento,
Horas de magia pura,
Carícias cuja ternura
Nos elevam ao firmamento.
Mas,
sendo um dom dos amantes,
Manter firme a
esperança,
Que o tempo vai
conseguir
Nossas vidas reunir,
Tenhamos fé e
confiança...
Haveremos de provar
As delícias deste
fruto,
Por enquanto,
proibido.
Nosso amor será
total,
E a existência,
afinal,
Para nós,
fará sentido.
José Magno
Aqui neste
quarto escuro,
Totalmente escuro,
Tu és todas as mulheres do mundo
E todas elas
possuem
O cheiro da tua pele
O sabor da tua boca
A sonoridade dos teus gemidos
E a suntuosa forma do teu corpo nu.
Cruz e Souza
De
linho e rosas brancas vais vestido,
Sonho virgem que cantas no meu peito!...
És do Luar o claro deus eleito,
Das estrelas puríssimas nascido.
Por
caminho aromal, enflorescido,
Alvo, sereno, límpido, direito,
Segues radiante, no esplendor perfeito,
No perfeito esplendor indefinido...
As
aves sonorizam-te o caminho...
E as vestes frescas, do mais puro linho
E as rosas brancas dão-te um ar nevado...
No
entanto, Ó Sonho branco de quermesse!
Nessa alegria em que tu vais, parece
Que vais infantilmente amortalhado!
Cruz e Souza
Para
as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...
Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...
E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...
Pablo Neruda
Tira-me o
pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires
a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta
é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor,
nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do
mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da
noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Fernando
Pessoa
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.