Ficção
Rio/Brasil -
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José Carlos Almeida
De repente,
começou a temer a morte. À medida que, sem
querer, lhe iam ocorrendo lembranças passadas há
muito tempo, temeu que se tratasse duma espécie
de balanço antecipado, a súbita consciência
plena da sua história, o livro completo ou quase
a completar para fecho de contas, a sensação de
que nada havia para a frente, que o futuro se
tinha esgotado e amarrotado perante o peso cada
vez maior do passado. Foi por isso que começou a
pensar em direcção a coisa nenhuma, tentando
evitar constantemente a memória do passado,
querendo apenas pensar sobre o futuro, como se
ele, afinal, fosse ainda uma caixa de surpresas
e esperanças recompensantes. Como se essas
imagens do futuro lhe insuflassem uma nova vida
e esconjurassem a morte. Por isso deu início a
um processo lento de apagamento da memória.
Abandonou a casa e o emprego, mudou de cidade,
deixou para trás os livros, o café e os amigos.
Abandonou a família. Deu um novo corte ao cabelo
e deixou crescer a barba, como sempre desejara.
Deslocou-se para o interior. O interior do país,
não de si mesmo. Mas na altura, olhando o rosto
e os modos dos seus compatriotas achou melhor
mudar de país. Sentia, como eles, o peso da
história. E isso incomodava-o. Mudou de país.
Assim fez. Escolheu um país ao acaso. Durante a
viagem vendeu o carro a uma família de
camponeses que lhe deu abrigo por umas noites,
enquanto pensava melhor na sua decisão. Quando
vendeu o carro percebeu que, inconscientemente,
estava a dificultar o seu regresso. Que não
queria regressar. Nunca tinha andado a pé e
decidiu que era isso que queria fazer. Primeiro,
hesitava entre os caminhos, quando chegava a um
cruzamento, depois deixou de hesitar. Apenas
sabia que de manhã queria enfrentar o sol e à
tarde queria caminhar sentindo-o a bater nas
suas costas. Nos dias mais enevoados fazia uma
paragem e dormia. O seu único consolo era saber
que ia deixando a sua história para trás de si
como uma cobra que larga a sua pele. Por isso
não parava de caminhar. Chegado ao país que lhe
coubera em sorte acabou por reparar, apesar dos
milhares de quilómetros de distância da sua
casa, que havia muitos pormenores que evocavam a
sua terra e o seu passado. Por essa razão, não
perdeu muito tempo e pôs-se de novo a caminhar.
Atravessou o mar. Durante várias semanas viveu
no porão de um navio mercantil. Conheceu gente
que apenas conhecia de ouvir dizer. Não os
entendia pois falavam línguas estranhas. Mas era
isso que ele procurava. Sentir-se absolutamente
estranho. Mas nenhum lugar lhe era completamente
estranho e, por esse facto, não parava em parte
alguma. Apenas o tempo suficiente para recuperar
forças e fazer-se de novo à estrada. Finalmente
desfez-se dos seus documentos, lançando-os numa
ponte. Já vira muitas vezes essa cena no cinema,
e se o fazia desse modo era porque seria a
melhor maneira de esquecer todos os filmes que
vira. E das circunstâncias em que os vira. O seu
olhar tornou-se bondoso e aprendeu a convencer
as autoridades. Não inspirava nenhum perigo. Por
fim, esqueceu-se do seu nome. Também era verdade
que não precisava mais dele para nada. Ninguém
precisava do seu nome. Ele não precisava do seu
nome. Não queria ouvir mais o seu nome. E ele
próprio já se começava a esquecer de si próprio.
Muitas vezes tinha que se sentar à beira do
caminho, quando sentia que aquilo que sobrava de
si mesmo, se atrasara. Até que percebeu que o
que pretendia era precisamente o inverso. E
começou a apressar o caminho e a encurtar os
períodos de descanso. Aprendeu a largar-se de si
mesmo. Como isso era importante!... Atravessou
de novo os mares e alguns continentes. O que viu
nunca vira. Mas não se demorava a ver.
Atravessava as cidades mais populosas de uma
forma quase imperceptível. Evitava parar nas
cidades. As montras e os espelhos das cidades
podiam ser fatais. Se alguém se demorava mais
tempo a olhar para si, partia logo a correr.
Temia ser reconhecido. Ou reconhecer no olhar do
outro, olhares ainda alojados no fundo da sua
memória. Não se queria ver a si mesmo, embora
sentisse que não se reconheceria. Mas não queria
correr riscos. Só os correria quando já não
sentisse qualquer risco. Por isso escolhia os
campos. Preferia os caminhos mais estreitos. Os
atalhos. Quando, por acaso, escutava alguém a
falar, apercebia-se que continuava a atravessar
países. Até que um dia chegou a uma cidade
completamente desconhecida. Achou que era um bom
lugar para ficar. Nada do que via à sua volta
lhe era familiar. Pela primeira vez, nada lhe
dizia alguma coisa. Que local estranho, mas
agradável, pensou. Pela primeira vez sentia-se
completamente vazio. Entretanto, porque ganhara
esse hábito, continuava a dar grandes passeios
pela cidade, a passo vigoroso, grandes passadas,
de forma apressada, quase louco, não ligando a
nada à sua volta. Caminhando, apenas caminhando.
O que fez nos primeiros dois dias que chegou à
cidade, caminhando dia e noite, repetindo os
lugares, as avenidas, as ruas, os becos, os
jardins. Para ter a certeza de que nada lhe
suscitava qualquer lembrança. Por fim, já
extenuado, resolveu entrar numa casa. Bateu à
porta e mandaram-no entrar para a sala. Uma
mulher e duas crianças apareceram-lhe pela
frente. Olhavam para ele, incrédulas. Pela
primeira vez, desde há muito tempo, o homem
olhava para si próprio e reparou em si mesmo. A
roupa esfarrapada, quase descalço, as longas e
sujas barbas, a magreza acentuada do rosto.
Libertava-se dele um cheiro fétido. Mas a mulher
e as crianças sorriram para o vagabundo. Tinham
passado quase dois anos. Eles não sabiam o que
dizer. |