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André
Rodrigues
"A convergir para
zero"
"Tanta gente,
tantos enredos
até ficarmos para sempre
quedos!
Para sempre? Não!
Que outros (mínimos) seres
já trabalham na nossa remoção."
Alexandre O'Neill, De ombro na ombreira
De
tudo o que se dissera e não dissera, pouco restava. "Pouco" era
aliás, de todas as palavras que ali se acotovelavam, a que mais se
ouvia. Todos toleravam os sopros de todos os outros, de insonoros
que eram, e a mudez, pactuada sobre sangue de ninguém, não era capaz
de mais que isto: o pouco crescia.
À saída, houve aqueles para quem a resposta mais natural foi acender
um cigarro e gostar de fumá-lo. Os que não fumavam, tiveram pena. E
a primeira baforada teve o efeito vaporizante que outro alguém ainda
tentou obter de um rebuçado de mentol e eucalipto. Depois, quando o
chuvisco quase tão inócuo como os poucos pensamentos conseguidos
resolveu dar uma de toró, os sete ou oito pontos incandescentes -
que a cada movimento dos braços ou das mãos iam ensaiando passos de
dança - pareciam formar a única equipa suficientemente corajosa para
fazer face às bátegas. Há algo de quixotesco em fumar à chuva no fim
de um velório.
Nunca largando a mão pequena e desenhada cujos dedos frios a rapariga
friccionava nos seus, foi impossível à noite evitar-lhe aquela
interpelação.
- Manel…
- Então, meninos, onde é que se vai?
Esta frase de Manel teve mais expressão do que qualquer outra até aí,
embora não fosse necessariamente dita com o ar de quem pergunta
"então, meninos, onde é que se vai?". O sucedâneo de sorriso que se
instalou nos lábios dela não descurou isso, e o que tinha falado
primeiro puxou longamente o fumo ao cigarro, que tinha a
particularidade de ser dos de enrolar, e retomou:
- Manel, falta a…
- Meteu-se num táxi e foi para casa. Tudo em ordem.
Nova passa. Cofiou a barba, apertou com mais força a mão da outra, que
por tentativas ia estreitando o gesto, e fixou-a brevemente porque
sabia que ao fazê-lo reporia forças. Mas Manel também não o deixou
descalço.
- Pode não parecer normal, mesmo nela, mas é assim mesmo. Além disso,
a casa para onde ela foi é a minha. Para onde eu, de resto, irei
quando voltarmos. Claro que não ia deixá-la sozinha a noite toda,
mas agora teve que ser. A sério, ela fica bem.
Ainda a ponderar uma insistência, o outro soprou mais uma nuvem, como
se fizesse bolas de sabão. Quando fazia isto, o contorno da cara
tornava-se-lhe confortavelmente difuso, como bem percebeu Manel.
- Ao Zero?
Ela abriu a boca para produzir um "vamos?" que a rapidez com que se
meteram no carro faria supor bem mais lapidar. Apenas o tempo de
Manel tirar mais um Halls do bolso enquanto os dois centímetros de
um cigarro enrolado que já dera o que tinha a dar iam a sepultar na
alturazinha de água que cobria o passeio. Rest in peace.
Mas nem por isso o Zero lhes pareceu um sítio pior. Suspensão
coloidal, dissera um deles noutro dia, com uma ou outra menção de
olá emergindo da matriz e a nossa mesa, como sempre, daquele lado.
Era quase possível, no desencontro das conversas, da música e dos
diversos vapores exalados, deslindar-se um padrão repetido, uma
cadência ou ritmo que teorizassem o que em termos empíricos ninguém
ousaria contestar: a mistura de tudo aquilo não era desprovida de um
significado.
A uma cara diferente do barman, Manel, que de uma forma ou de outra já
tinha decidido levantar-se, empreendeu o trajecto. Quando chegou ao
balcão, um toque do telefone adiou-lhe a breve troca de palavras,
pelo que foi espreitar a rua.
O panorama mantinha-se. Só que agora a chuva a percutir no toldo fazia
esforços por se integrar na métrica do barulho de fundo. Não o
conseguindo, dava a volta por cima, alongando-se numa celebração em
tudo primordial e incausada: a fúria da água a cair. Encostado à
porta, de ombro na ombreira, o espectador não sabia bem se aquilo
era um espectáculo digno de aplauso. Pois que a questão nem sequer
era essa - digno de aplauso seria sempre. A dúvida que ali se lhe
pôs foi se não seria melhor descrever a chuvada como imagem de uma
plateia, um balcão, um coliseu inteiro que se põe de pé em ovação à
mais bela das récitas. E lembrou-se da noite do concerto, que tinham
vindo, todos então, acabar no Zero. Ele aflito com o prazo do
artigo, o primo da outra com o avião para apanhar às oito e meia, os
outros mais stressados ainda, caramba!, mas fiéis ao conluio com os
brasileiros, numa de prolongar ao máximo o estar… nisto, contudo, a
magnífica peça de jazz para chuva e orquestra até então tapeteada no
toldo do Zero sofreu uma mudança brusca: desacelerou e pôs-se um
molha-tolos mortiço. A alegoria algo tribal que havia em tudo aquilo
deu lugar a um desses momentos em que, tendo levado a adrenalina do
Cosmos ao rubro, o intérprete falha o apogeu da obra. "Deus
acobardou-se ao piano", pensou, "e logo hoje que o Nuno até merecia
uma canção". Foi aqui que Manel voltou a ficar triste.
- Desculpe lá o mau jeito - o barman, com quem só lhe faltou chocar,
já desligara -, mas olhe, soube há bocado. Ainda não apanhei o
queixo…
- Hã, soube? Como é que…
- Ah, olhe, ela mandou dizer para não se preocupar. E para não ter
pressa, que está à sua espera. E olhe, hoje a noite fica por nossa
conta, está bem?
- Não estão cá os brasileiros - ao regressar à base, a constatação
dela, ainda mais branca debaixo do R grande do letreiro, convergia
para uma mesma ausência que o fumo do cigarro que o outro voltara a
acender -, mas olha, Manel, a tua miúda é impossível. Lembras-te do
que ela fez naquela primeira noite em que falámos com eles?
- Estava apostada, sabes como ela é. E ele também não é…ra muito
diferente.
- E o brasuca, morto de gozo, quando percebeu que ela estava a olhar
para eles: "escuta, moça, você está a divagar? É que a gente prefere
dipressa!"
O riso que se seguiu a esta saída do da barba não tinha aspirações a
igualar antecessores. E mesmo estes últimos tinham-no sido sem ter
de o querer, não seria bonito da parte de Manel esconder aos olhos
pretos que o sabia. Foi este um pouco o turning point que os fez, a
180 graus na mesa, pousar o tabaco de enrolar:
- Manel, estava a pensar. Tens mesmo a certeza que ficou tudo bem com
ela?
Aqueles olhos podiam ter a cor da noite, mas eram de todos os mais
inadaptados. A ponto de obterem alívio da impressão ácida com que o
fumo turva a vista. Eram momentos pouco propícios a quem, por detrás
da barba e da voz cava, esconde o jogo da solidão inverosímil mas
realíssima que se segue a um silenciamento. Quando a fé escasseia
para expurgá-lo, como de resto em todos os momentos de rara beleza -
e tenha-se aqui a atenção de distingui-la da alegria -, é duro o
"mai'nada". O pior é que, não obstante o quão diferente a angústia
dos outros, a coisa pega-se. Por esta altura Manel já aprendera que
há males que não vêm por bem, e que não vão a bem. Por muito que.
Pelo que só pôde abanar a cabeça enquanto ela acabava à pressa o
tríplice-seco.
O carro, outra vez, mas sem chover. Os néons do Zero no retrovisor, só
vestigiais, e nem uma palavra. Depois de o irem pôr a casa, unânimes
num "até amanhã" que se adivinhava uma provação, semáforos
consecutivos tiveram a consideração ou a imensa piedade de ir
abrindo o caminho. Até à porta dela, onde ambos saíram do carro para
um aveludado de cacimba.
- Bueno, cá estamos. Vá, despacha-te que não se deixa uma
senhora à espera - ensaiou ela, embora Manel já estivesse fora do
carro.
- E o que isto não deve ter sido para ela. Não a consigo ver sem o
irmão.
- Nem eu. Não faço ideia de como é que as coisas vão ser.
- Ouve, estava a pensar, se quiseres ir lá para casa, arranja-se o
sofá-cama…
- Obrigado, Manel, mas não. Eu fico bem. Não me digas que já estás
como o outro, coitado! Veio-me dizer que estava ali para o que eu
precisasse.
- Ainda bem que tomaste conta dele. És mesmo um espanto, miúda.
- Não sou, não. Ainda não caí foi em mim, e não quero estar por perto
quando isso acontecer. É este medo, sabes? É que…
- Sei - com que veemência três letras passam uma mensagem - sei. E
eras mesmo tu, miúda. Para o Nuno, eras mesmo tu.
Agarrar-lhe a mão pequena e desenhada que tremia, foi preâmbulo para o
abraço em que desejou ser capaz de a envolver e resguardar. Choraram
os dois. E era a mesma amargura, o mesmo vazio, a mesma anulação ao
entregarem-se ao calor um do outro. O mesmo zero. Ao desaparecer
pela porta, o rosto dela levava esculpido esse sentimento, e Manel
só rodou a chave na ignição quando viu que a luz do quarto se
apagara. Depois, depois guiou e sentiu um pequeno mas enorme alívio
por saber que ao enfiar-se na cama ia ter quem tomasse conta de si.
Lisboa, Dezembro de
1997 e umas vezes em 1999
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