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Lucas L Rocha
MÁQUINA DE AMAR
Estava acordado há exatamente oitenta e cinco horas e
trinta e oito minutos. Não serei tão preciso
quanto aos segundos, que pareciam passar com uma
velocidade assombrosa, mais rápido que o som ou
mesmo a luz. Os olhos vermelhos e as pupilas
dilatadas indicavam que, além de sono, Pedro
estava sob efeito de cafeína e estimulantes. Não
poderia parar agora, não quando tudo estava
quase no fim. Quase pronto, salvo alguns
parafusos, porcas e retoques finais.
Sobre a mesa, as inúmeras ferramentas que usava
estavam espalhadas, juntamente com a trigésima
oitava xícara consecutiva e fumegante de café,
para a qual ele se dirigia e bebia um longo gole
a cada bocejo. A mão esquerda segurava uma chave
de fenda, e a direita alisava o aço frio no qual
trabalhava.
Um amor. De aço inoxidável, fibras de carbono e
inteligência artificial primitiva.
Olhou para o relógio pela enésima vez, enquanto
as caixas de som do computador estouravam na voz
do jurássico David Bowie. Sexta-feira, duas e
vinte e três da manhã. Ruas lotadas de
voluptuosas prostitutas, musculosos
encrenqueiros e abastados festeiros. Todos
aproveitando o início do fim de semana. Sexo,
drogas e rock ‘n’ roll. Pedro tinha todas as
opções, excetuando-se a primeira. Por enquanto.
Provara o amor de uma prostituta pela primeira
vez aos dezesseis. Sozinho, partira para a
noite, depois que a mãe se entorpeceu de
soporíferos e desabou na cama, praticamente em
coma. E lá foi ele, provar do etéreo sabor do
sexo. O sabor doce que todos falam e que a
masturbação afirma ser a melhor das sensações.
Se, com apenas uma canhota era capaz de se
atingir tamanho êxtase, o que se dirá de uma
vagina por completo? Pagaria o que fosse
necessário, e tudo seria apenas dele por algumas
horas.
Pegou o dinheiro da bolsa da mãe, e, com os
pensamentos de uma noite de completa loucura e
luxúria, partiu para a penumbra da capital
urbana.
Não foi difícil encontrar o produto. Ruas
apinhadas, produtos a mostra para todos os
gostos. Dos dez aos cem: meninas cheirando a
leite, com maquiagem carregada e vocabulário
chulo, cobrando uma prata por minuto de sexo
oral em um canto obscuro; mulheres de vinte e
poucos anos com aspecto de quarenta, disputando
lugar com travestis, puxando facas e tesouras na
briga pelo melhor ponto da esquina, vestindo
apenas roupa íntima, usando cílios falsos,
loções vagabundas e batons borrados; velhas,
magras, gordas, novas.
Parou, pensou e analisou. Recebeu propostas de
homens e mulheres, de crianças e vovós. Recusou
todas. Continuou andando, apreensivo, as mãos
suando. Medo. Medo do desconhecido, medo da
escuridão. Primitivo medo, que só conseguia
superar com um abajur.
Uma delas se aproximou. Não mais de vinte e
cinco. Cabelos cacheados, pele morena, lábios
carnudos e tingidos de vermelho. Levantou a
blusa, pôs os seios à mostra. Trinta reais, meia
hora. Cinqüenta, uma hora. O preço.
Ele aceitou. Pagou rapidamente, e, juntos, foram para o
motel.
Tamanha decepção! Seios lindos, perfeitos, mas só. Pela
escuridão e pelo pouco tempo, não teve a
oportunidade de ver as cicatrizes quando ela
elevou a blusa na rua. Grandes e gritantes,
percorrendo todo o corpo da mulata. Vinham de
cima a baixo, do umbigo ao dedão. Grandes e
escandalosos, tornavam o toque a pele áspero.
Mas ele não pensou nisso. A pele era o menor de
seus problemas.
Ela o acariciou. Nem com amor nem com prazer.
Com obrigação. A obrigação de quem foi paga para
fazer aquilo acontecer. Não, o senhor Pênis não
queria nada menos que carinho. Não quis acordar
ante a mão suada e friorenta, com unhas postiças
e cicatrizes escandalosas da prostituta. Ele
simplesmente se recusava.
A puta ajoelhou-se, abaixou-lhe as calças e,
mesmo sem progresso, enfiou o senhor Pênis em
sua boca. Pedro não gostou. Não era como os
filmes pornôs prometiam. Ele não gemia, com as
mãos na nuca, e nem ela o acariciava como os
diretores dos filmes mandavam que as atrizes
fizessem. Ela simplesmente continuava ali, como
se tivesse lambendo um dedo cortado. Sem amor,
sem tesão. Sem nada. Só obrigação.
Já foi dez minutos, meu filho! Como é que é, vai
ou não vai? – ela perguntou, impaciente,
levantando-se e cruzando os braços.
Pedro levantou as calças, e, amedrontado,
correu.
Foi embora do motel, voltou para casa, caiu na
cama, afundou o rosto no travesseiro e chorou.
Deixou a prostituta sem ação e a consciência
pesada. Será que, no fim das contas, era como os
gays que aprendeu a repudiar desde a infância?
Não achou que aquilo fosse verdade, e creditou
todo o fracasso de sua empreitada ao nervosismo.
Tentaria de novo. Esperaria mais um pouco, até
que a mãe ganhasse mais dinheiro. Dessa vez,
tudo iria acontecer maravilhosamente bem. Ele
tinha certeza.
Não aconteceu.
Dessa vez, uma loira, catorze ou quinze anos,
pele macia e olhos azuis, sorridente. Como um
anjo. Mas nem toda a beleza que Pedro demorara
quase quarenta e cinco minutos escolhendo fez
com que o senhor Pênis levantasse e fosse à
luta. Pedro, desacreditado, voltou para casa.
Só tinha prazer quando usava as próprias mãos.
Tentou mais três vezes, e, em todas, não teve
êxito. Uma velha, uma gorda e um travesti. Pelos
cálculos, gastou quase mil pratas em três meses,
e não teve um minuto sequer de prazer.
Foi quando percebeu que o problema não era ele.
Eram elas. As putas, machos e fêmeas. Elas não
tinham amor. Tinham só obrigação. Essa era a
diferença.
Resolveu investir em si mesmo. Entrou em um
programa de reeducação alimentar, começou a
praticar exercícios físicos e procurou um
dermatologista para acabar com o problema de
acne que o perseguia desde o início da
puberdade.
O ânimo durou dois meses. Dois meses de
fracasso. A mudança na alimentação o deixava
irritadiço, os exercícios não surtiam efeito e a
acne nunca lhe pareceu tão grotesca. “Antes de
melhorar, tudo piora”, era o que diziam o
nutricionista, o professor da academia e o
dermatologista. Mas Pedro não se convenceu.
Largou tudo, desistiu. Ninguém o notava. Fingiam
que não existia, que era um ser insignificante.
Como um cão manso. Todos sabem que está lá, mas
não incomoda ninguém.
Passou os próximos anos solitário, escondido do
mundo em seu quarto cada dia mais escuro e sujo,
jogando RPG’s online e criando avatares de
homens poderosos. Pelo menos no mundo virtual
seria conhecido. Faria fama, ficaria rico.
Pelo menos.
A mãe morreu. A irmã teve um filho. A III Grande
Guerra teve início. O mundo viu a queda da
América do Norte, detonada por bombas chinesas.
As pirâmides de Gizé finalmente cederam ao peso
do tempo. As favelas cariocas ficavam cada dia
maiores, sufocando o espaço do asfalto.
Pedro não viu nada disso. Vinte e dois anos
depois, tudo o que ele sabia se resumia aos
números de ataque, defesa e magia de seu avatar.
E robótica.
Pedro estudava robótica pela internet quando se
cansava de seu jogo. Começou com cinco ou dez
minutos por dia, lendo artigos sobre como
construir seu próprio porta-lápis de metal e
vendo matérias sobre R2-D2 e C3PO. Com o passar
do tempo, foi se aprofundando nos assuntos.
Aprendeu a construir uma luva térmica, uma
câmera de vídeo, a reprodução de uma pata de
cachorro, e também de um pé humano. Descobriu
sobre inteligência artificial, sobre moldes e
sobre metal inoxidável. Agora, até mesmo saía de
casa para comprar seus produtos, ou roubá-los na
calada da noite. O dinheiro que ganhava com a
venda de armas e roupas excedentes ao seu avatar
mal o sustentava.
Fazia seus projetos lentamente. Ainda não eram
seu vício. O jogo, sim. Não desgrudava dele.
Em uma das inúmeras campanhas no RPG, ele
conheceu WHITE_WIZARD. Uma bela avatar, de
formas avantajadas e olhar safado. Começou a
conversar. Ele se apaixonou. Fez declarações de
amor, falando que queria conhecê-la, casar-se
com ela e ter filhos. Não no mundo virtual, mas
sim no real. Migraram para a sala de
conversação, onde trocaram fotos. Ela era
realmente bela, parecida com o avatar. Ele não.
Era gordo, com olheiras profundas, barba
mal-feita e rosto de marginal.
Depois desse dia, WHITE_WIZARD nunca mais
apareceu no mundo virtual.
Ele não se conformava. Ela tornara-se sua
obsessão. Passava as madrugadas, os dias, as
tardes e as noites vagando pelas planícies do
mundo virtual em busca dela. Subia montanhas no
dorso de dragões, consultava feiticeiros das
trevas que o empobreciam com promessas de
devolvê-la em três dias. Nada adiantava, ela não
aparecia. Nunca mais apareceu.
Então lhe veio a idéia. De súbito, enquanto
olhava para a foto dela. Teria ela, só para ele.
E ela sim seria diferente das putas que aprendeu
a odiar. Ela lhe daria amor.
Começou com o projeto, que durou cerca de dois
meses. Dois meses de uma compulsão crescente,
fazendo-o até mesmo deixar de lado seu mundo
virtual e fantástico.
Tudo estava quase pronto. Faltavam apenas os
detalhes. Detalhes impertinentes, que o fizeram
ficar acordado por pouco mais de três dias
seguidos. Polimento aqui, desenho ali, lâmpadas,
parafusos, porcas, pregos e buchas. Não faltava
muito agora. WHITE_WIZARD estava quase pronta.
Com suas asas brancas, seu vestido longo, suas
botas azuis e, na cintura, sua espada embainhada
e sua lira. Tudo de metal, feito com perfeição e
pintado com precisão. Nem mesmo o sono fazia-o
tremer o pincel ou errar na textura do
polimento.
Afinal, um amor não pode ser feito de qualquer
jeito.
Coçou os olhos, espreguiçou-se. Deu a última
polida nos lábios – a parte mais importante – e,
afastando-se, viu finalmente toda a beleza de
sua obra.
Tinha os cabelos no lugar, pintados de branco,
os olhos como duas bolas brilhantes de luz, que
tinham um tom de ciano semelhante à da
menina-dos-olhos da original. Cerca de um metro
e sessenta e cinco, magra e atraente. O olhar
safado fora perfeitamente reproduzido, e o rosto
tinha cinco expressões diferentes: seriedade,
alegria, gargalhada, timidez e prazer. Não
tristeza. Nunca tristeza. Essa era uma palavra
que não existia, não para WHITE_WIZARD. Tudo o
que vinha dela era feliz.
Puxou o cabo USB que vinha da cabeça de sua
amada e conectou-a no computador.
O quadro de opções abriu-se. Agora seria fácil.
Tinha tudo ali, ao alcance das mãos. Sua própria
criatura, seu próprio amor, à mercê de suas
vontades, sorrindo quando necessário, sentindo
prazer quando ele quisesse. E nunca triste, nem
raivosa, nem frígida. Seu próprio Frankenstein,
mas não rebelde como o original. Programada para
amar. Para amá-lo.
Clicou em “Ligar Inteligência Artificial”.
- Olá. Pedro. Sou. WHITE. WIZARD. A. Suas.
Ordens.
A voz era metálica, intercalada, mas ainda assim
era linda. Os lábios moviam-se com precisão, e o
barulho interno das roldanas mal era notado.
- Menu. De. Opções. Aberto. Escolha. Uma. Opção.
Ele obedeceu. Acabara de ligá-la, e a criatura já lhe dava
ordens.
- Opção. Escolhida. Comando. De. Voz. Ativado.
Aproxime-se. Do. Alto. Falante. E. Diga.
Claramente. Sua. Ordem.
- Claro que sim... – ele sussurrou, um sorriso
abrindo-se em seus lábios, mostrando os dentes
amarelados e cariados pelo tempo.
Aproximou-se. Pigarreou. A voz sairia clara,
para não deixar nenhuma sombra de dúvida.
Finalmente, sua ordem seria ouvida.
- Me ame.
Claramente. Limpidamente. Única e exclusivamente.
Esperou, enquanto a inteligência artificial processava a
informação.
- Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente.
Novamente.
Tudo bem, ele pensou. Problemas acontecem. Abaixou o volume
da caixa de som, pigarreou novamente e,
encostando os lábios no alto-falante, falou com
a voz mais clara que possuía.
- Me ame.
- Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente.
Novamente.
- Me ame!
- Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente.
Novamente.
- ME AME! ME AME! ME AME!
- Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente.
Novamente.
- ME AME, SUA MERDA DE MÁQUINA! É TÃO DIFÍCIL
ASSIM?
- Comando. Não. Identificado. Tente. Novamente.
Gritou, puxando os cabelos dos lados da cabeça
com força. Não, pirar não era a solução.
Respirou. Fechou os olhos. Relaxou. Contou até
dez. Tentou novamente, como ela ordenara.
- Me ame.
Esperou, apreensivo. Todos os cálculos feitos,
todo o tempo perdido. Não. Não podia falhar. Não
depois de tanto tempo.
- Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente.
Novamente.
Dessa vez o grito ensurdecedor veio acompanhado
de agressividade. Jogou a máquina no chão, mas
ela nem ao menos pareceu sentir. Continuou
olhando-o com aqueles olhos ciano, estáticos e
belos, esperando uma ordem de seu mestre.
Ele foi para um canto, agachou-se, o rosto entre
as mãos, as lágrimas escorrendo-lhe.
- Aproxime-se. Do. Alto. Falante. E. Diga.
Claramente. Sua. Ordem. – ouviu-a dizer, num
sussurro metálico.
- ME AME! – ele gritou, enlouquecido. – EU SÓ
QUERO QUE VOCÊ ME AME!
- Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente.
Novamente.
Era inútil.
Enraivecido, pegou a cadeira do computador, e,
segurando-a no ar, jogou-a com toda a força no
corpo da máquina. A cadeira quebrou-se com
estrépito, fazendo voar pedaços de madeira podre
para todos os lados, mas o aço continuou
inoxidável. Com um pequeno arranhão na lataria,
talvez, mas nada que comprometesse sua beleza ou
estrutura interna.
Chorou mais, enquanto o robô mandava-lhe dizer
claramente a ordem no alto-falante.
Arrastou-se até ela, as lágrimas ainda molhando
seu rosto. Mas não chorava mais de tristeza. Ao
invés disso, um sorriso sádico estampara-lhe o
rosto. Se fosse visto pelos antigos padres e
pastores, diria que estava possuído por alguma
entidade demoníaca. Mas ele não acreditava em
demônios que não os de seu RPG. Aquele sorriso
era de lucidez, de brilhantismo. Uma grande
idéia lhe viera, e ele a usaria.
Chegou perto da máquina, e, rasgando-lhe toda a
roupa e tirando a sua própria, penetrou-a.
Estava estuprando-a, tomando o controle. Não
importava o quanto ela falasse ou ordenasse
algo. Ele estava sobre ela, enquanto ela estava
murmurando o mesmo som entediante. Mas ele não
se importava. Parecia não ouvir nada. Não ouvia
nada.
Com o tempo, o estupro pareceu-lhe menos
interessante. Frivolidade por parte dela,
talvez. Tudo o que ele sabia era que o bom e
velho senhor Pênis resolvera hibernar.
Novamente. Tentou reanimá-lo de alguma forma.
Não conseguiu.
Desesperado, jogou toda a culpa em sua parceira.
Gritou-lhe insultos, enquanto ela,
pacientemente, dizia que o comando não fora
identificado.
Tentou de todas as formas convencer-se de que
todas eram o problema. Ele era normal,
perfeitamente normal. Era culpa delas. Elas
nunca lhe deram prazer.
Ele faria outra. Sim, melhor do que essa.
Dedicaria mais tempo e atenção à nova, daria
todo o amor que ela merecia e que não dera à
primeira. Faria com que tudo fosse diferente.
Seria amado como merecia.
Depois, a lucidez tomou conta dele.
Não adiantava tentar. Seria a mesma coisa. O
mesmo círculo vicioso. Nem mil anos de trabalho
lhe dariam amor verdadeiro. Ele não sabia o que
era aquilo. E morreria sem saber.
Quando se jogou da janela do seu apartamento,
caiu abraçado à sua criação imperfeita. O
mergulho vertiginoso fê-lo morrer
instantaneamente, quebrando seu crânio e
despejando pedaços de cérebro e sangue na rua
chuvosa e poluída.
A máquina teve apenas um amasso na lataria, e,
quando os primeiros policiais chegaram, ela
ainda sussurrava.
- Comando. Não. Identificado. Por. Favor. Tente.
Novamente.
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