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Rita Maia e Silva
O Nosso Jardim
Resolvo tudo através da discussão. Desde sempre.
Não conheço outro sistema. E não se entenda por
isto que são discussões construtivas, fórum
aberto, tipo vamos lá trocar de opinião para ver
se chegamos a alguma conclusão. Não. São
discussões acaloradas, animosas, atingindo às
vezes níveis de violência impensáveis. Sou eu
contra o obstáculo, inimigo sem identidade.
Descarrego energias empilhadas, alimento ódios e
raivas várias. Sem razão aparente. Exponho sem
pudor a frustração que não agarro, exibo o lado
mau com muita lata. Encerro-me num autismo que
pisa sem querer - mas até quer - o outro,
transformo-o num verbo de encher. Ou apenas
convencido que o semelhante não passa de um
alien por apurar. Uma entidade distante que
teima em chocar comigo.
Tomei-lhe o gosto em pequeno, ao assistir, quedo
e mudo, às fantásticas demonstrações que os meus
pais me proporcionavam de forma sistemática e a
cada vez mais elaborada. É óbvio que tal escola
não me deixa indiferente. Assimilei-a com
naturalidade e de bom hábito, também a mim se
pegou como vício e entranhou-se-me na pele como
uma droga. Evito a todo o custo a ressaca.Viver
torna-se então a antítese de si mesmo. O Inferno
por si só. A consciência perde-se nas entranhas
do ser. Desesperada, pendura-se nas amarras da
sobrevivência. O instinto reage e a infelicidade
pespega-se-me nas trombas.
Arrasto-me em dias, em anos e mais séculos nesta
condição. No meio desta praga, acredito que vou
vencer. É este pensamento que segura a minha
vida presa por um fio. Queimo o tempo, precipito
os acontecimentos. Até nas discussões estou mais
rápido e eficiente.
No meio deste despautério, viajo a um jardim. Um
qualquer e como em qualquer um, a Natureza corre
os seus ciclos sem acidentes. Observo árvores e
plantas. Escuto o seu doce murmurar. Pasmo com a
beleza e simplicidade. Admiro-as no seu posto de
vigia, bem lá no alto, quase alheias à sua vida
natural. As folhas debotam, os ramos secam,
caiem por terra para abraçar uma nova vida e
tudo começa outra vez. É a Natureza a falar,
tranquila na sua nudez, renovada sem dramas,
viçosa na serenidade. Na verdade tudo o que me
incomoda e o que me atrai.
Vejo o Joaquim, ainda criança, acocorado à beira
do lago. Os patos e os cisnes aproximam-se e
disputam as migalhas que ele vai atirando em
ritmo lento. A vida corre com mais vagar naquele
lugar. Ali, teria tempo para pintar um quadro
com o Joaquim ao pé do lago, os animais que
comem o que lhe vem das mãos, as árvores que
sussurram para a terra.
Shshshhshshshshsshshshs…..
Atrás está a mãe, ainda nova, distante do filho.
É bonita e parece preocupada. Anda devagar e
assim que agarra uma árvore esconde-se atrás
dela. No fim do percurso - que repete uma, outra
e mais uma vez - reaparece, de cara vermelha e
olhos inchados.
Joaquim tem olhos atrás das costas. Habituou-se
a fingir que não percebe. Habituou-se a ser
criança sem nunca o ter chegado a ser.
Compreende a mãe à distância e assim a deixa
horas a fio, a ajustar-se à sua infelicidade em
silêncio. O dia é longo naquele jardim, a
avaliar pela posição do sol.
Percorro o jardim, investigo os cantos mais
secretos. Percebo que não existe mais ninguém,
para além de nós os três, dos animais e das
plantas. É um jardim só nosso. Um lugar
especial.
Volto para baixo e confirmo a impressão de que o
tempo não passou. Joaquim continua a atirar
migalhas que nunca se acabam e a mãe continua a
tropeçar de árvore em árvore, de cara ainda por
desinchar. Mãe e filho continuam perto um do
outro, sem se aproximarem.
Sinto-me fatigado de o sol teimar em não
adormecer. Tenho vontade de perguntar por onde é
a fuga, mas sei que não me podem ver nem ouvir.
Obrigam-me a procurar: desço, subo, apresso o
passo, arfo de cansaço, desconfio que tenho
visões de portas sem saída . Estou fechado.
Tenho pressa em sair. Não aguento mais o sol,
eternamente a pico. Abrasa-me aqueles dois,
juntos pela condição da Natureza e por ela
separados. Ali, naquele quadro que eu poderia
pintar. Não encontro a sintonia que amarra o
pincel à tela. Estou cansado de procurar. Sem
perceber, deixo-me cair sobre as plantas.
Estremece-me o corpo, apaga-se o sol e a lua
acorda. Arrefece subitamente. Os cobertores
pesam-me como quilos de mágoa. Afinal, sempre
encontrei a porta de saída. A mesma de sempre.
Vira o disco e toca o mesmo. O meu jardim é o
pesadelo de olhos abertos.
O sol volta a nascer, manso e de tempo contado.
É de manhã e chamam-me devagarinho. Acordo e
finalmente não me vejo mais.
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