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Leila S. Terlinchamp
Nervos
Súbito uma revolução no céu. Meus carneirinhos
foram varridos com fúria e covardia. Contemplava
essa transformação quando mamãe chegou e
perguntou-me: O que há, meu querido? Nada,
estava assistindo à performance das nuvens.
Respondi. Esta bela performance está a nos dizer
que mais tarde haverá chuva em abundância. Disse
ela. A chuva é boa, mãe. Respondi.
O céu é tão imenso e acham de varrer os meus
carneirinhos. Esse deus gosta mesmo é de
contrariar mortais como eu. Um simples zás e lá
se vão os animaizinhos...
Mamãe entregou-me os livros que eu tinha
encomendado. Eu mesmo preparei uma lista pois se
deixo por sua conta ela banca a censora. Acha
que algumas leituras não fazem bem aos meus
nervos. Dona Mercedes, dona Mercedes! Ela sim,
tem nervos de aço. Quase. Se eu tivesse deixado
os títulos ao seu encargo eu não teria o Matsuo
Bashô agora em minhas mãos. Não é mesmo, mamãe?
digo-lhe e ela sorri. Bashô não faz mal aos
nervos de ninguém, Dona Mercedes sabia disso,
ela tinha me oferecido, ela mesma, esse livro e
agora vinha com essa conversa de nervos. Está
pirada, dona Mercedes? Ela ri, me abraça e me
assegura que não é bem assim, que essa idéia de
censura não tinha partido dela. Ah! Eu devia ter
adivinhado, e falando do diabo, lá vem ele
caminhando lentamente. Seguro e altivo. Senhor
Sérgio Novaes Carvalho Khoury, meu pai. Muito
orgulhoso do Khoury que eu também carrego,
claro, mas sem a mesma empáfia. Tento esconder o
livro sob o banco mas o faço como um criminoso e
tão atrapalhadamente que só consigo chamar mais
a atenção para o objeto. Como vai, filho?
Pergunta ele. Bem, e o senhor? Respondo.
Mercedes, o que voce trouxe para ele? Seguiu a
lista? Nós conversamos sobre isso, o médico
concordou comigo, lembra-se?
Senhor Khoury não se conformava, o seu único
varão ali, rodeado de alienados. Quando os
clientes perguntavam pelo seu filho respondia
que ele estava na Europa, participando de um
intercâmbio cultural. E mamãe abaixava os olhos.
Mamãe, você trouxe o caderno que pedi?
Perguntei-lhe. Aqui está, um belo caderno,
lápis, canetas….Respondeu ela enquanto tirava
tudo da bolsa. Para quê isso? Perguntou o velho
Sérgio. Vou escrever sobre os meus companheiros
de insanidade. Respondi. Que palhaçada é essa?
Perguntou ele olhando para mamãe. Palhaçada
nenhuma, ele disse aos outros que era escritor e
agora eles querem que ele registre as suas
histórias. Explicou muito naturalmente mamãe. E
desde quando ele é escritor? Perguntou,
enfezado, papai. Desde quando ele decidiu assim.
Respondeu, sem mudar o tom, Dona Mercedes.
Escute, a culpa é toda sua, eu não sei se já te
disse isso com todas as letras, mas a culpa é
sua. Disse-lhe papai. Sim, você já me disse isso
com todas as letras…
E papai vai embora pisando duro, como sempre.
Quando mamãe se vai, inicio o registro.
Zoroastro será o primeiro porque o seu nome
começa com Z. Zoroastro que é alto, forte, meio
banguela, senta-se no tamborete na minha frente,
ergue a cabeça e dita: Era uma vez, uma linda
princesa, eu.
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