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João Medeiros
Daqui Só Saio
Quando Morrer
1.
O cão gemia tanto que
miava. Pendurou-o debaixo do braço, pegou-lhe
pela cauda pendular, volteou uma corda de ponto
cruzado na sua ponta e uma lata destapada de
querosene na outra, e soltou-o no chão. Balançou
a perna bruscamente de um lado até ao rabo do
cão, que ganiu num salto e solto fugiu regando
óleo pela lata. Araújo soltou então um fósforo
aceso no riacho de combustível. Num só fôlego, o
fogo galopou até ao cão, perseguindo-o através
da floresta. Os pinheiros e os eucaliptos
acenderam-se como lâmpadas.
Aquele tipo de vida tinha começado um dia meio
ano atrás, quando Araújo Monteiro-Silvas recebeu
a visita de três homens vestidos de branco na
sua casa vaga de desempregado, no bairro social
das Ajudas Perenes. Era tarde, os três senhores
apinhados na porta suavam, devia ser do calor.
Araújo perguntou quem eram do outro lado da
porta, vendo-os desfocados e distorcidos pelo
olho-de-boi.
De porta aberta, os três homens sorriram ao de
leve, bafientos e gordos. Um era parecido com
uma cara espalhada pelas ruas na altura das
eleições, mas Araújo não fez conta, outro era
polícia em paisana, e o terceiro era o ex-patrão
que o tinha desempregado.
- Como vai, Aráujo? -disse-lhe o ex-patrão e
Araújo pensou com os diabos que vem agora este
aqui. Fez cara de sujeito empancado com a
conversa, enquanto afagava o bigode hirsuto e
tenso, mas não rogado o ex-patrão desatou
zumbindo ladainhas -...sabe que eram tempos
difíceis, razões de racionalização e
multi-tasking, mas olhe: [...]
Aráujo ouviu e não gostou, ficou com o cartão de
visita e adiou uma resposta, mas de noite e de
barriga roncada e vazia, pensou que remédio
tinha senão aquilo ou ser encontrado pendurado,
pendurado como roupa velha apodrecendo,
encontrado por qualquer vizinha cigana que teria
duvidado da razão de tanto cheiro roto, um
Araújo morto na corda curta pelo desespero de
nada ter e nada lhe darem.
Fez uns trabalhos e foi rendendo. Era já Verão
alto e a própria terra tinha piromania, ardendo
calor através dos poros de musgo. Um dia chegou
mais um telefonema. - Ora mais um trabalhinho
para o Araújo! - disse-lhe da linha o retomado
patrão com voz irritante e adunca, nasal e
criminosa. Segundo ele existiam interesses por
terrenos na serra frondosa do Rochedo Milenar,
paraíso na terra protegido de Araújos que Araújo
deveria tornar inferno. A madeira ia render na
proporção da queimada, e uma empresa de combate
aéreo aos incêndios florestais estava pronta e
de contrato assinado com o governo local.
A Araújo empestava-lhe aquele calor devasso, da
chama que lhe vinha das mãos a troco de pouco,
mas suficiente.
- A serra do Rochedo Milenar -pensou -,que raios
ia lá com o pai pescar quando era puto, as
primeiras trutas e sardas, todos os fins de
semana de Verão e bom tempo. Mas pouco disse,
como era hábito feito.
- E olha - disse-lhe mais o patrão -,desta vez
sê esperto e põe um rafeiro a fazer o mais
difícil -e desligou.
Horas mais tarde, já o cão fugia com a chama
atrás, espalhando fogo e fumo pelo verde.
- Felizmente as árvores não gritam por socorro -
imaginava Araújo o arvoredo a ulular de pânico,
sacudindo os pés presos no cimento da terra,
brandindo os ramos como nas ventanias bruscas.
Apesar da deambulação, ateou um último fogo numa
clareira seca, e sentou-se no chão, desafogado
com algum sofrimento desconhecido. As árvores
começaram a morrer como bruxas na estaca.
Já o cão não se via, repentinamente Aráujo
sentiu o peito queimar-se-lhe, como se por
acidente se tivesse ateado a si próprio. Sentia
como que pedaços de vidro espetados na carne que
se atingiam por pedaços quentes de sol e bigode
ardia-lhe na pele, como se tivesse tornado numa
pequena labareda. Intimidado, sabia que não era
acidente, haviam coisas dentro de si que ardiam,
fogo posto na alma que ardia sem se ver.
Araújo pensou - Tenho de sair daqui! - mas
sentou-se novamente, esgotado e exposto - Puta
de vida.
Viu ao longe o rio onde pescava com o seu pai,
as suas primeiras trutas e sardas, e entre os
ramos revoluteantes da chama imaginou ver o seu
pai, pescando suavemente com uma cana longa que
baloiçava para tirar os peixes da água. Sem
reparar, Araújo estava cercado de labareda e
tinha-se tornado árvore, com ramos, folhas,
tronco duro até ao centro da terra, e sentindo o
peso das estrias centenárias por onde sangrava
seiva verde, queimou-se até à terra que o vira
nascer.
2.
Nas fraldas do
Rochedo Milenar vivia Armindo Cabra-Leite. Nessa
mesma tarde, Armindo, velho velhinho, estava no
quarto quando a chama, vinda de longe, invadiu
tudo num só momento, apanhando-o na desprevenção
de um sono.
Apanhado assim, repetia em soluços -Que desta
morro! Que desta morro! - Com pouco cálcio nos
ossos rangidos e pouca força nos músculos
vazios, tentou levantar-se e procurar saída.
Andou um pouco contra o nevoeiro do fumo mas
sentiu tonturas imediatas no peito que o
obrigaram a recolher-se novamente. Armindo
estava cercado e intransigente a labareda subtil
consumia as paredes à sua volta.
Os parcos móveis, mesinhas de cabeceira,
estantes e guarda-fatos armário faziam barulhos
estaladiços e faziam cinzas. O retrato de uma
mulher antiga derretia, e o caixilho estalava e
fazia cinzas mortas. Com um olhar sempre vago,
com um ligeiro sorriso de sofrimento - o
fotógrafo tinha-lhe dito que sorrisse mas
Eugénia Cabra-Leite não tinha jeito para aquelas
coisas tão preparadas e tão formais - Eugénia
derretia aos poucos, firme e tensa e vaga.
Armindo olhando-a assim decidira que morreria da
mesma maneira. Olhou em frente, e firmou os pés
no chão de estacas que saltitavam de calor, e
cerrou os lábios com firmeza ainda que tremesse.
Firmou também os olhos, baixando as pálpebras
velhas, ainda que chorasse um pouco. No retrato,
Eugénia Cabra-Leite, amarrotando-se toda numa
convulsão derretida, dizia-lhe com sussurros -
Vem comigo, sai da solidão. Através do turbilhão
da chama, agora só Armindo e Eugénia partilhavam
coisas.
As paredes continuavam a estalar e as chamas
cada vez mais circunscreviam Armindo firme na
sua cama. Armindo fala alto para si, pede-se
calma, retesa as lágrimas, não dá voz a pânico.
Pensa que não vai chegar a sentir o fogo na
pele, que o fumo já vai ser demais para os seus
pulmões sem ar. Olha os comprimidos para dormir,
e pensa se tentasse uma dose para dormir demais,
ali na mesinha de cabeceira, talvez todos de uma
vez, talvez passasse a dormir imenso e teria
sonhos sem calor.
Tarde demais, a mesinha começou também a arder,
agarrada por uma chama que caiu de uma trave do
tecto com escarcéu - pam - os comprimidos
derretem-se na fornaça, polvilhando o ar de
soporíferos que se dissolvem nas restantes
cinzas e Armindo cai inconsciente de fumo.
Contudo nem duas labaredas ameaçam e já uma mão
puxa finalmente Armindo para fora do quarto,
arrastando-o através das estacas do chão que
estalavam. Na rua, aplicam-lhe oxigénio, dá-se o
refolgo. Não havia ar em lado nenhum como se o
sol se tivesse sentado na atmosfera esmagando-a
contra a superfície da terra. Armindo sofre, faz
de peixinho dourado em aquário sem água durante
uns minutos, boqueando ar para dentro, aflito.
De onde estou vejo-o de longe, esgotado e
prostrado na cama da ambulância. Perguntam-lhe -
como se chama? Sente dores? Está queimado? -
Apalpam e oscultam Armindo que chorava ou pelo
menos parecia que chorava, talvez de comoção. Ao
longe via-se a sua pequena estrutura
sacudindo-se lentamente, os ombros vacilando.
Eu, entretanto, esbaforia com frenesim, não só
eu mas todos, bombeiros de mangueiras esticadas
bombeando água contra as alturas e locais
regateando metros poucos ao fogo com ramos de
árvore e baldes de areia. A cinza pespegava-se
no meu rosto, alvo da brisa ácida das chamas. Já
lutavam todos dois e três dias assim desta
maneira, sem sono ou recompensa. As chamas
abraçavam-se às árvores rompendo até às suas
alturas, lançando-nos um mural de calor que nos
suava a humidade do corpo, ameaçando-nos como um
exército de gigantes que sacudia as casas por
gozo.
Chamam-me então para evacuar Armindo da área com
urgência e corro para a ambulância onde ele está
nas mãos de um bombeiro. O velho pede para
ficar, quer lutar contra o fogo, mas o meu
colega olha-o com calma - O senhor agora tem de
ir, para descansar e ver se não tem problemas
sérios, estas coisas ás vezes queimam-nos onde
não conseguimos ver.
No hospital, Armindo é visto por um médico,
jovem, que lhe diz que parece estar tudo bem,
depois de ter ouvido o peito implodido e fraco
de Armindo. O médico tomou-lhe então o braço
fino e caminhou-o para um dos colchões de cama.
- Descanse um pouco, sr. Armindo, e se se sentir
mal é só chamar uns dos enfermeiros que vagueiam
por ali -disse-lhe. Armindo olhou o corredor e
viu enfermeiros vestidos de branco circulando em
silêncio, de olhos atentos a quem tinha deixado
arder a casa como ele.
Abatido por tudo, Armindo fechou então os olhos
cansados. Com a vinda do sonho sentiu tremuras
na pele e os seus olhos lançaram-se numa
montanha-russa de movimentos debaixo das
pálpebras cerradas. Numa floresta longíqua
africana, viu-se vestido com farda miliciana e
empunhando uma metralhadora a tira-colo.
Cercando a vista estavam grandes árvores de copa
oval amarela, nas quais chamas verdes deslizavam
entre as folhas como se fossem liquidas, caindo
para o chão fazendo cascatas tépidas. Na queda
faziam faúlhas com o atrito, queimando as
moléculas de ar que se transformavam em carvões
flutuantes. Ao caírem no chão, as labaredas
líquidas esfolavam a terra e largavam sangue. No
sangue telúrico e castanho que alagava toda a
floresta estava o reflexo de Armindo de arma
empunhada, de cara encorpada traçada com um
bigode hirsuto e tenso. Fazia calor de incêndio.
Em todo o lado cheirava a animais livres,
cheiros tépidos e frescos, cheios de ilusão como
miragens de desertos quentes. Armindo então
ajoelhou-se e levou a mão à terra inundada. Ao
tocar Armindo sentiu com horror os dedos
queimados e o ardor rapidamente se espalhou
pelos braços, peito, cabeça, como um miasma.
Gritou forte e começou a disparar para o céu até
acordar esbaforido de suor. Acalmou-se e deu-se
com uma certeza, não devia ter abandonado a sua
casa. Que antes tivesse morrido.
Veio de novo ter consigo o médico, ao que
Armindo lhe contou o mau sonho. O enfermeiro fez
pouco caso e sem delongas disse-lhe que estavam
ali uns senhores que queriam falar com ele a
propósito do que tinha visto antes do incêndio.
Dirigiram Armindo para um pequeno escritório na
companhia de um policia, jovem, enquanto o
enfermeiro veria então Armindo mais logo e o ia
deixando por um corredor afluente. No espaço de
entrada contíguo ao escritório, três homens
bafientos e gordos, vestidos de branco,
conversavam em tom inaudível. Um era policia,
outro o presidente da Câmara, e o terceiro era
um homem-mistério. Armindo aproximou-se com o
jovem policia e eles emergiram um pouco os seus
rostos inclinados, parando de falar. Pareceu que
sorriram respeitosamente para Armindo quando o
viram aproximar, mas Armindo não faz disso
certeza. Os três homens suavam copiosamente,
devia ser do calor.
O policia encaminha então Armindo para a porta e
no interior sentou Armindo.
- Se não se importa espera um pouco que o
comissário já vem. -disse-lhe e saiu. Está
fresco e suave e Armindo sentiu-se um pouco
melhor. Os três homens entram varrendo o chão
com os seus passos de enigma e sentam-se em três
cadeiras encostadas à parede, incomodando
Armindo com um silêncio-fátuo. O comissário
entrou pouco depois.
- Sr. Armindo, como se sente?
Armindo acenou que bem, usando as palavras
habituais.
- Sr. Armindo, montamos um posto policial de
urgência no hospital para estabelecer contactos
imediatos e eficientes com as testemunhas
visuais dos epicentros de incêndio.
Armindo aí pestanejou da forma mais nula
possível.
-Sr. Armindo, estamos por isso aqui ao ataque
contra as pessoas que lhe fizeram esta tragédia.
O senhor viu, sentiu ou ouviu alguma coisa de
suspeita na tarde da tragédia?
O comissário então reclinou-se na cadeira e ele
próprio produziu um silêncio em que Armindo
parecia não poder ainda penetrar com palavras.
ainda que lhe tivesse sido feita uma pergunta.
Estranho. De perto, sentia os olhos rompidos dos
três homens nele depositados. Fugazmente
tossiram os três em paralelo como se para testar
a consistência daquele silêncio e mantê-lo
cerrado contra Armindo.
- Sr.Armindo não viu nada então?
-Vi - Armindo soltou.
-O quê?
-Coisas.
-Que coisas, sr. Armindo? - o inspector fez
zoomido com os seus olhos em Armindo, inclinando
o tronco sobre a secretária. Armindo abandonou
então a contenção e gritou - QUEM SÃO ESTES
SENHORES?
Com o dedo apontado varre na direcção dos três e
num salto rude Armindo rompe contra os que
encostados na parede se entreolham pela
surpresa. Armindo tem raiva no coração porque
sabia a que farsa aquilo cheirava, porque sabia
o que estas pessoas não sabiam, que pensavam que
se podem fintar assim setenta ou oitenta anos de
vida. Armindo levantou-se então sentindo de novo
a memória vívida dos seus vinte anos idos, anos
de trabalhos duros nas alfândegas marítimas e
pancadarias nas tascas. O comissário pinchou
alertado, pequeno e insignificante, e correu
para o corredor alarmando que se busque rápido
um enfermeiro rápido enquanto Armindo já
ameaçava torcer cabeças e os gordos tentavam em
vão subir pelas paredes, ganindo como eunucos.
Ainda conseguiu esfarelar uma canela branca com
um pontapé de esquina ia Armindo já nos braços
de um enfermeiro que o arrastava pelos
corredores - Vá Sr. Armindo, vá, com calma -até
longe do tumulto.
Amarrado por braços fortes, Armindo foi levado
por labirintos de escadas e elevadores
consecutivos até perder o sentido de direcção.
Nos corredores, sobre a triste cor das paredes
desinfectadas, lívidas do hospital, as dezenas
de pessoas que Armindo tinha encontrado durante
a sua chegada, tinham-se multiplicado por outras
tantas. Eram crianças e avós, pais e crianças,
encolhidos entre os colchões distribuídos no
chão e nas macas. Nas sombras das luzes
desligadas dos pavilhões do hospital, entre os
cobertores emaranhados e as mantas de vultos que
dormiam, havia um choro de fundo, havia um
sussurro ecoado e lúgubre. Tinha faltado a luz e
fazia calor sob a luz da lua nas janelas largas
dos quartos e dizia-se entre as paredes e os
corredores e as macas e os pavilhões que tudo
que tinha ido tudo tinha ido tudo tinha ido tudo
tudo tudo.
Já Armindo estava decididamente perdido no
percurso que estavam fazendo quando o enfermeiro
largou o seu braço velho e ia já seguindo por um
corredor afluente, desta vez sem se despedir.
Armindo reclinou-se sobre o estômago, levando as
mãos aos joelhos. Cansado, vê então no corredor
adjacente, sentada numa pequena cadeira
repousada defronte de uma maca nua, a sua
vizinha Idalina Boa-Nova. Mancou até ela, como
uma sombra, e acercou-se pondo-lhe a mão no
regaço de mãos cruzadas. Idalina arregalou os
olhos na direcção de Armindo até o discernir dos
contornos circundantes. Vendo-o finalmente,
soltou um pequeno grito e suspirando agarrou-o.
- Oh Armindo, ardeu tudo, Armindo, ardeu tudo.
Armindo Cabra-Leite olhou-se com vagar pensando
nas vítimas que eram. Tomando uma decisão,
vergou-se então até ao peso dos seus joelhos
estragados e deu-lhe um beijo seco na face de
rugas:
- Vou fugir, Idalina. Vou para casa que de lá
não deveria ter saído. De lá só saio quando
morrer.
Surpresa, Idalina alteou o peito descido,
abafando-o depois um pouco e expelindo o ar das
bochechas disse - Oh Armindo! Não vás que isso é
toleira! Ainda te acontece outra!
Olhando-a Armindo pensou -Não me contradigas,
Idalina Boas-Novas, que minhas mãos estão nas
tuas, e a meus olhos restam já poucos dias de
claridade. Mas não tinha forças para falar,
Armindo sorriu somente, de maneira frágil como
que insistindo e lamentando aquela condição.
Idalina bocejou novamente o ar que tinha nas
bochechas, rendendo a sua preocupação à fé no
seu amigo.
E Armindo partiu, pelos corredores, pelas saídas
do hospital sem que ninguém lhe confiscasse a
liberdade, pelas ruas, até aos cimos da serra
que o chamavam, deixando Idalina Boa-Nova
sentada defronte do corredor enquanto
desaparecia.
Na noite, Armindo foi caminhando os caminhos da
serra, caminhos de um asfalto esquecido. Isto
com os seus pequenos passos, perguntando-se ali
e além, quais eram as diferenças entre os
pequenos focos de chamas no céu e nas serras. A
todo o comprido do vale e das cercanias, via-se
sem distância os filamentos de chamas entre as
árvores. Os bombeiros, em baixo, no seguimento
das estradas, atravancavam os seus carros
sapadores nas fileiras de alcatrão e corriam com
desaforo, mangueiras esguias na mão, fugindo
contra as chamas, batendo-lhes com águas de
jactos murchos, capando-lhes a raiz com alvoroço
de formiga. As chamas elevavam-se assim à vista
cansada de Armindo cansado, os incêndios
lavrando tudo.
- Talvez seja assim o Inferno. Morremo-nos,
fardam-nos de bombeiros e somos enviados para
combater chamas até à eternidade. - disse em voz
baixa para consigo.
Em volta, era tudo rescaldo, a terra esfumando
como se estivesse a evaporar. As árvores
queimadas esperando já novas árvores, espécies
alienígenas daqueles montes, fungos gigantescos
que iriam sugar as mantas de água velha dos
poços da terra, como cangurus sedentos num
deserto árctico, comendo todo o gelo. E com as
árvores iriam as aldeias, e com as árvores novas
viriam as cidades e com isto tudo, iriam os
velhos. Iriam os velhos com a força da chama,
iriam os velhos com sua solidão, iriam os velhos
extraídos com a dissensão de um machado que
atalha a força das raízes cortando no tronco. Os
velhos que gritam - daqui não saio - ,e já os
tinham arrancado com a labareda, levados em
braços pelas autoridades, deixando-lhes para
trás a raiz apodrecida no chão.
Armindo suspirou com o pensamento e olhou
novamente o céu. Subitamente, fez-se silêncio
denso, como tivesse caído um pano feito de
noite, cometendo todo o vale à falta de luz e à
falta de som. Os barulhos distantes foram
remetidos a tocas abismais, e as estrelas
piscaram como lâmpadas de néon até se apagarem.
Uma claridade fusca surgiu então no fundo de
todos os montes como um palco de teatro
iluminado a partir do chão. Tudo parecia quieto,
todos os montes e colinas erguidos como sombras
tremendas de fúria silenciosa.
Sentindo uma tremura repentina pelas veias, o
sangue puxando-lhe com velocidade até aos
pulmões, Armindo involuntariamente soltou um
grito retinente, relinchando como um
cavalo-totem. De longe, de montes acercados,
soaram outros gritos, fortes, retinidos e
prolongados. Dos fundos, a noite gritava em
congregação. E então fez-se madrugada.
Foi já sobre a luz de um sol que sublinhava o
horizonte, que Armindo viu a sua aldeia, no fim
da estrada de asfalto. A geometria e a
localização eram as mesmas de sua memória mas no
lugar das casas da aldeia, erguiam-se agora
bases curtas de tijolo queimado. Móveis obscuros
e tortos, completamente inúteis padeciam de pé
nas ruínas como múmias. A aldeia tinha implodido
naquela guerra atómica de fogueiras como uma
citânia escurecida da antiguidade, cheia de
artefactos puídos.
- Que maldade a do fogo - disse e sabia agora
bem de repente de que se tratava tudo isto, este
acidente de humanidade tão subtil.
No fim da sua rua empedredada de ladrilhos em
granito, a casa de Armindo, outrora cercada do
arvoredo que tinha trazido a chama. Sobre a luz
fraca matinal que faz o ar azul escuro, Armindo
calcorreou o chão, arrastando as calças pelo pó
vivo das cinzas e pelos quartos contíguos sem
tecto.
- Não devia ter saído daqui. - Armindo desceu
até ao pátio, o alpendre estava abatido, como o
resto do telhado. O quintal havia-se tornado um
lugarejo de cinzas e tijolos e bidões cheios da
água estagnada que tinha sido atirada contra o
fogo. Armindo soergueu-se então na ombreira da
porta exterior, olhando tudo com vagar. Olhou em
frente, cambaleado mas rígido, posando para a
escuridão com intento, focando os olhos como
alguém se estivesse pronto a tirar-lhe uma
fotografia. É pequeno, atarrecado, de tronco
curto. As calças estão presas acima na linha do
umbigo com um cinto de fivela. As botas são
botas botas botas, esgotadas pelo uso rude que
lhes dá Armindo. A cobrir o peito implodido e
fraco, uma camisa interior branca, daquelas que
se compravam nas antigas retrosarias. Cobre-lhe
o calvície uma boina de tecido.
Foi assim que o reconheceu o vizinho que por ali
andava como Armindo. Os escombros ainda
fumegavam quando a vizinho se aproximou.
- Então o tio Armindo não vê que ainda se queima
ou lhe cai o resto do telhado em cima?
Vagueando pelo nevoeiro dos escombros, Armindo
olhava as telhas no chão, procurando as telhas
boas, e soltando as más para um contentor de
lixo.
- Pronto, nesse caso como preciso do tractor e
ele tem o selim queimado, vou primeiro arranjar
o tractor.
E lá foi Armindo irredutível á procura de
material para refazer o assento.
- E se deixasse isso para os da câmara? Talvez
venham cá dar uma ajudinha…
- Vou agora incomodá-los. Eu cá me desenrasco. A
minha filha de França vem cá com o meu genro, e
ele ajuda me, oh.
Armindo sabia que precisava de continuar a
andar, a passarinhar atrás de telhas partidas,
telhas boas, pedaços de colchão para fazer
bancos de tractor, tijolos secos para refazer as
paredes partidas. O vizinho deixou Armindo assim
nas suas sortes. Nesse momento, uma brisa
castanha e esfumada oscilou no ar, escorregando
nas fossas nasais e impregnando Armindo: cheiro
de cadáver.
E assim passou um dia naquele vagar de cinzas
até à queda da noite, sem comer, sem repousar,
sem ninguém por perto. Cansado finalmente,
Armindo aplanou no chão uma coberta que tinha no
armazém dos fundos, e deitou-se de frente para o
tecto tolhido. Entre frechas viam-se estrelas e
universo, metidos entre as telhas suspensas e
aquela escuridão intrigante entre os espaços de
pequenas luzes solares.
- É para ali que vão os velhos quando morrem. -
aponta Armindo para o espaço entre duas estrelas
anónimas.
De repente, uma língua varre as rugas de
Armindo. Um nariz preto e quadrado ofega junto
ao de Armindo, e a língua varre novamente as
rugas e os olhos de Armindo. Buga tinha
regressado, chiando ao dono, que amarrou o cão
preto com força incrédula. Armindo sorri, este
regresso é uma alegria, e chora enquanto esfrega
o pêlo de Buga nos seus dedos.
- Meu cão, vieste meu lindo cão. - Atada na
cauda estava uma lata vazia, que Armindo desfez,
afagando o rafeiro.
Mas a vizinhança tinha razão, as debilidades das
vigas ainda estavam vivas e Armindo não estava
seguro. De repente, silenciosamente, parte do
tecto quebrou. Telhas, vigas, paredes rompem num
desmaio sobre Armindo e sobre Buga, soltando pó
no ar num tumulto de cinzas frias. O barulho é
um estrondo que incomoda a serenidade da noite
mas é efémero na duração do impulso que a
gravidade dá as coisas para cair como bem lhe
apetecerem, e na vizinhança não se acendem luzes
em janelas sobressaltadas com o alarme.
A noite recompõe-se e vê-se um velho em
andrajos, Armindo com idade, tombado no chão
como se fosse vagabundo em esquina de rua com um
cão longo e rafeiro atravessado no seu colo.
Buga tinha vindo avisar Armindo do perigo. Tanto
o velho como o cão continuavam olhares rectos de
olhos fechados pelas linhas do céu, não
oscilando de forma perceptível, de aspecto
quedado e mortificado. A poeira da queda
suspendia o ar com a tensão lívida do acidente.
Mas Armindo abriu então os olhos, e dá-se
consciente, abre novamente os olhos, ofega Buga
no seu colo, que pronto faz com a cauda em
concordância, e estavam bem. A queda dos
escombros tinha sido amparada pela dinâmica das
traves do telhado que se entrechocaram e
afunilaram à chegada do chão com Armindo deitado
com Buga precisamente no intervalo das traves
tombadas.
- Anjos na terra -rezou Armindo enquanto se
esgueirou do emaranhado de pó, seguido pela
cauda oscilante do cão até ao relento do quintal
sem tectos. As estrelas sossegam novamente, dono
e cão deitam-se e descansam as pálpebras na
relva acizentada.
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