|
Helena Langrouva,
"Zelina"
Helena Langrouva nasceu em Sintra. É licenciada
em Letras Clássicas (Lisboa, 1974), em
Letras Modernas-Cinema (Montpellier), fez
pós-graduação na Universidade de Paris (D.E.A.-
Paris III, 1978). Começou a publicar na
revista O Tempo e o Modo (Lisboa, 1968), tendo
publicado ensaios na revista Brotéria, (Lisboa,
de 1982 a 2003). Publicou traduções de
poemas de Jean Joubert na revista Critério
(Lisboa,1977), e traduziu O Homem de
Areia, romance de Jean Joubert, Lisboa, 1991,
Difel.
O conto que publicamos foi enviado à Ficções como
proposta de colaboração.
"Zelina"
No canto azulado do
escritório, fingindo ler em simultâneo o Fausto
e o Doutor Fausto, Zelina
desferia o seu olhar cilíndrico, obnubilado pela
ambição visceral da cultura
a metro, não conseguindo
desbravar os engenhosos carreiros
de formigas que circundavam
vertiginosamente o rodapé da
parede cinzenta que escolhera
como eco quotidiano da sua
para-reflexão. De vez em
quando, uma ardilosa barata deslizava sobre o
tapete persa que herdara
de Teófilo, seu velho
padrinho, sempre encasacado e
deformado pela torsão de pensador à Rodin.
Zelina permanece no escritório, alheia à frescura
das manhãs, ao rebentar das papoilas
e ao sofrimento das crianças da rua que lhe
batem à porta a pedir refrigerantes,
bolos, almoço e afecto.
Finge que não ouve as crianças a
gritarem, a poucos metros da sua vivenda. Lá
fora, na piscina, nadavam
muitos sapos e coaxavam
inúmeras rãs, naquela
primavera semi-cinzenta à Bergman. Teve de
renunciar ao afecto para deixar voltejar a
serpente que nela continuava a
disfarçar o sorriso falso, povoado de
fantasmas e de tédio.
Zelina estava calma e espartilhada como
um fim de dia lúgubre, ainda na meia
idade, envolta em roupas pouco
desenhadas, de cor malva e negra. Parecia
descansar no canapé forrado de
veludo. Na sua secretária Henri II,
pululavam alfarrábios, mares de
papéis escritos apenas nas margens
desbotadas, catadupas de
livros de Henry James, Pasternak e Nietzsche,
tantos outros que herdara, sem cultivar a
coragem de os enfrentar. A sua fastidiosa
cultura afilava-se na imitação de ideias de
amigos, em tardes secas de outono.
Dormia numa falsa tarimba com edredon de penas
de ganso e forro de seda rosa China.
Naquele fim de tarde, Zelina descansava
no rodapé de veludo sem nenhuma oca
congeminação. Sentia-se parada
no tempo, a adormecer com sabor a
eternidade, num sono
progressivo e estéril que prolonga a
ausência de
qualquer traço de gesto
criador. E o pêndulo do
relógio dourado, protegido por
uma imponente redoma de vidro, repetia as horas,
pela mão disfarçada de um
anjo. Zelina adormecida não deu pela síncope que
a fez na meia idade
partir desta vida descontente. Teófilo
tinha partido em viagem de
negócios sem se despedir da sobrinha e afilhada
cuja presença lhe era quase indiferente.
Nos corredores povoados de espelhos e flores
exóticas, violetas e aves do paraíso,
passavam os mordomos
encasacados, para acompanharem
os recém-chegados ao hotel
Acre, na Pensilvânia. Teófilo,
enrugado e pensativo, esperava
que o mordomo chegasse à porta
do seu quarto que escolhera para
o último andar, para poder pensar, olhar a
Pensilvânia e suas surpresas o mais
rapidamente possível, sem se deslocar muito.
Tinha negócios ainda a
cumprir e estava a contar com as
oscilações da Bolsa para poder
jogar e aumentar a fortuna
pessoal. Sabia que seria quase submergido
por telefonemas dos seus clientes e que
resolveria, no quarto ou na
varanda, inúmeras situações das
empresas que confiavam nos seus conselhos
e no seu trabalho
telefónico. Esperaria pelas pausas
dos telefonemas para acentuar as rugas e
torcer o pensamento. Sentado no
sofá, olhava as flores e
os espelhos do quarto. Após ter convencido
e conquistado muitos clientes,
estava a meditar como gerir tanto
dinheiro que acabara de ganhar em meia hora,
quando voltou a tocar o telefone. Era a
voz da Idalete, a empregada doméstica de Zelina:
- Está? Senhor Miranda?
- Sim, Idalete. Há alguma urgência? Como conseguiu
contactar-me?
- Tenho sempre os seus contactos na
agenda que a Menina Zelina deixa na
cozinha para eu levar para o meu quarto.
- Tem razão. Eu comunico
sempre por email à Menina Zelina onde e como
pode encontrar-me quando viajo. Sou o seu
padrinho e a sua única família. Por que é
que a Menina Zelina lhe pediu para me telefonar?
- Lamento, Sr. Miranda, mas a Menina
Zelina não está disponível e tenho de ser
eu a comunicar com o Senhor.
- Não está disponível?
Então o que lhe pediu para me
dizer? É algo urgente?
Teófilo Miranda não era
dado a maus presságios
nem a especulações negativas, o
que lhe permitia viajar
sem medo, percorrer salas e
corredores sempre espelhados e
ganhar fortunas em pouco
tempo. Mas naquele fim
de dia de outono,
parecia-lhe inesperado receber
um telefonema que não fosse de negócios.
A Menina Zelina precisa de
saber a minha opinião
urgente sobre o orçamento das
obras na piscina, para ver se e as
rãs deixam de coaxar todo o dia no
quintal? Ou então qual é a urgência?
- Sr. Miranda, não sei como
dizer-lhe, mas a cor deste fim de dia está
muito escura e triste aqui. A Menina Zelina
entristeceu de repente.
- O que é que eu posso fazer a esta distância,
Idalete? Ela precisa de um fax, de um
email, de dinheiro, de apoio moral?
- O que me aflige, Sr. Miranda, é que
de repente parece que ninguém lhe pode
valer. É por isso que o Senhor tem de saber.
Teófilo Miranda converteu de repente a torsão do
pensamento em ansiedade. O suor começou a
escorrer discretamente na sua testa quase
lívida, desfez repentinamente o nó da
gravata dourada e sentou-se numa poltrona de
maior porte.
- Então, Idalete, não pode dizer à Menina
Zelina que tente falar comigo, para eu lhe
dar ânimo e segurança?
- Gostava muito, Sr. Miranda, mas ela não pode
falar.
- Não pode falar? Está doente ou tem apenas
uma daquelas crises de tédio que a tornam
muda?
- Sr. Miranda, prepare-se para o pior, tenha calma
e aceite a notícia.
- Que notícia, Idalete?
- A Menina Zelina apareceu
morta a dormir. Não estava doente. Foi o
coração que parou. Já
vieram os médicos e confirmam que
foi paragem cardíaca derivada de uma
síncope. O Senhor tem de saber.
Teófilo Miranda agarrou-se com ímpeto à
poltrona para não desfalecer com o choque.
Tinha de regressar de imediato à sua mansão e
acompanhar Zelina até à última morada.
- Não posso acreditar, Idalete. Minha querida
afilhada. O tédio matou-a. Foi pena eu não
ter tido tempo de me preparar para a perder. Foi
bom para ela partir descansada
e sem dar pelo seu fim. Vou no primeiro avião da
noite ou da manhã, onde tiver lugar. Esperem por
mim, por favor. Telefone à Senhora Dona
Ana. Peça-lhe ajuda até eu chegar.
- A Senhora Dona Ana já me ajudou, mas
pediu-me que fosse eu a telefonar ao
Senhor, para lhe dar a notícia. Ela vai tratar
de tudo. Ficamos à sua espera. Não se
preocupe. Boa viagem. Até amanhã, Sr Miranda.
- Até amanhã, Idalete. Diga
à Dona Ana que não lhe telefono e confio.
Muito obrigado.
Passaram dez meses sobre a
morte de Zelina. Teófilo escolhera viajar
menos e tratar dos negócios
pelo telefone, na sua própria mansão, onde
escorriam cascatas de música e de espanto.
No jardim, cópias de estátuas gregas
e barrocas espargiam, com os repuxos de água
cristalina, a beleza ideal das estátuas de
deuses e de kouroi. O tédio de se ser belo como
uma estátua grega. Era preciso procurar
quem desse vida à estátua, quem desse
sabor à vida.
O que mais falta neste
mundo de fugas do vazio, dos
desgostos, é a presença de
Pigmalião. Falta quem dê vida à
estátua, e sobretudo quem atravesse
a vaga da vida. São raros os que
procuram a beleza temperada pela lucidez e
a fibra da vida .
É essa fibra da vida
que falta nestas esferas da cultura a metro, da
cultura como refúgio de um
grande vazio, nos jovens, mulheres e homens
que tentam imitar percursos de quem ousou
enfrentar a vida e ser. Há uma crise
de modelos vivenciais. Os
raros que, sem o saberem, são grandes
almas, mahatmas, em expressão hindu, os
que cultivam profundas forças de ser,
sem falsas personagens, que
se expuseram a perder carreiras de
prestígio e de fachada, por vezes não
tiveram tempo para concretizar uma obra
visível de arte literária,
musical, plástica e são os que são
imitados. As pessoas vazias e
inteligentes não cessam de tentar imitar
percursos mais fundos dos mahatmas, a cultura
vivenciada, para ascenderem ao
prestígio e ao estatuto do poder, do grande
artista, do ser narcísico e
fascinante que todos subjuga pela personagem de
simpatia e sedução, ou de qualquer outra
figura de proa. A auto-insegurança inteligente
consiste em imitar os
grandes de espírito como
suporte interior, criando uma fachada
de personagem manipuladora ou
outra que seja convincente e
calculada. Porque os grandes
de espírito não manipulam, apenas abrem
caminhos. Os miméticos desconhecem
que percorrem o fulcro da violência,
constróem a sua vida
sobre a rivalidade insana, crivada de
pressas e corridas ao poder. Há que
procurar uma outra saída para uma nova maneira
de estar atento a quem
se admira, sem rivalidades, nem
pressas nem vaidade.
Tudo isto, a propósito das
cópias de estátuas gregas dos jardins de
Teófilo, do tédio de se ser belo como uma
estátua.
Teófilo convidara especialistas londrinos para
afinarem a sua colecção de cravos e
clavicórdios. Estava enraizado na indiferença e
só se apercebeu do seu afecto
por Zelina, quando teve de
enfrentar o luto. Tinha de contornar
o desgosto da morte de Zelina e
dedicar-se aos seus inúmeros gostos
e interesses musicais que lhe
temperavam a concentração do seu
pensamento nos negócios. Contratara Vere
Atkinson, antiquário, harpista e cravista
inglês que passava longos meses na sua casa para
dar concertos, passear no
campo e meditar sobre as
últimas sonatas que acabara de compor.
Na mansão da Quinta do
Purgatório, Vere tinha ao seu dispor três salas
sobriamente decoradas, para
dar espaço à colecção de
instrumentos musicais que vendera a
Teófilo, ao longo de algumas décadas. Teófilo
não sabia tocar nenhum
instrumento, mas sabia que a
música seria um dos melhores
refúgios para o seu vazio
interior que atormentou toda a sua
existência neste planeta. A música
dava vida às suas salas, quando Vere se
decidia a ser por ele contratado
para a sua mansão, implantada numa
planície que lhe lembrava os
intermináveis e suaves prados, próximos de
Woodstock onde passara a sua adolescência.
Lembrava-lhe os seus passeios de
autocarro, de Woodstock para
Stratford-upon-Avon, para ir visitar Anne
Hathway cottage, passear nas margens
do Avon, comprar belas edições dos sonetos
de Shakespeare e tentar ver Ralph Richardson em
palco.
Vere Atkinson tinha especial
predilecção em acompanhar com a harpa, o
piano, ou o clavicórdio,
as amigas de Teófilo e de Ana
Duncan, sua secretária e amiga. Era
de esperar que quem visitasse a mansão da Quinta
do Purgatório se sentisse
atraído pela magia do trabalho de Vere que
sabia construir harpas e
clavicórdios, afiná-los com o maior
rigor, vendê-los na sua
loja, embrechada numa travessa de acesso ao
belíssimo parque de Richmond,
nos arredores de Londres, próxima de um
miradouro sobre o Tamisa, não
muito longe de Heathrow. Era fascinante ainda o
seu trabalho de compositor
e intérprete, os seus inúmeros
convites para concertos públicos
e privados. Era-lhe difícil
escolher repertório, porque oscilava
entre os concertos para harpa
e orquestra de Haydn e Mozart, a
música de câmara, as variações a Goldberg de
Bach, a música de Mozart para
glassharmonica que ele adaptava ao
clavicórdio. Como tinha sido amigo
pessoal de Poulenc, escolhia e transpunha o
acompanhamento a piano de canções de
Poulenc, para poder acompanhar os diferentes
cantores convidados. Teófilo
pressentiu que a
presença de Vere Atkinson
perduraria, com regularidade negociada, até ser
possível, nas suas vidas.
Assim se diluía o tédio,o luto e a
melancolia. Teófilo nunca falhava nos
negócios e nunca desistiu
de reunir amigos, na Quinta do Purgatório.
Lembrava-se de Zelina, nas
tardes secas do estio, quando
os amigos partiam em cruzeiro.
As rugas e torsão do seu pensamento,
o tédio da beleza ideal das
cópias de estátuas gregas dos seus
jardins pareciam abrir-se à
alegria ciclicamente renovada,
à procura de uma âncora na própria
vida, liberta dos meandros negativos do
vazio e competitividade agressiva
dos miméticos. E não se cansava de pedir a Vere
que convidasse alguém que lhe
cantasse: Music for a while: a música durante
algum tempo cura todos os teus cuidados.
Os gregos antigos confirmavam: "o tempo cura
todos os males".
voltar ao início |