Ficção
Rio/Brasil -
|
* * * * * * *
|
|
M.P.D. " Vodka"
Ivan Seialovich estava terminando a sua segunda garrafa de Kusnetsoskaya e não dava impressão que iria parar. _Ivan! Como um engenheiro sério com você pôde esconder todas essas garrafas aqui?
Os dois únicos tripulantes da Estação Orbital Russa MIR estavam há 8 meses no espaço e estavam ansiosos para serem levados de volta. Mas como o governo russo ainda não aprovara o orçamento para o aluguel de um Ônibus Espacial Americano para fazer a "troca de turno" com outros astronautas, eles teriam que esperar pelo menos mais alguns meses. Os astronautas sabiam que a velha Rodina não existia mais. Os profundos problemas econômicos e sociais atuais na Rússia, fez com que a verba do programa espacial fosse reduzida drasticamente. Antes da queda da URSS em 1991, quase todos os astronautas soviéticos eram membros do partido comunista, e faziam parte da chamada Nomenklatura, o que significava que além de altos salários, tinham certos tipos de privilégios que a grande maioria da população nem sequer podia imaginar. Entretanto, hoje o projeto espacial era encarado como um gasto sem sentido e os antigos "ilustres" astronautas eram tratados como se fossem simples trabalhadores de um Kombinat industrial siberiano. Mas apesar de tudo, homens como o capitão Viktor não se arrependem de terem rasgado o carteira do "partido" depois que o Duma russo sofrera um golpe frustrado comunista no outubro de 93.
Ivan, que já havia mergulhado numa viagem etílica, flutuava imóvel na ponte de controle sugado pelo pequeno circulador de ar no teto. Viktor, preso na cadeira com o cinto, ainda não terminara a primeira com o pequeno canudo que dispunha, mas já estava soltando "suspiros" etílicos vindos da região do abdômen. De repente, algo parecido com um sussurrar chegava ao seu ouvido. Viktor olhou para o flutuante amigo inerte ao lado dele e concluiu que não viera dele. _Nem terminei a primeira garrafa e já estou ouvindo coisas?
O sussurro se trasformou numa voz nítida. Uma voz feminina. Parecia que a voz estava chamando por ele. _É... essa é da boa mesmo!! - disse olhando para a garrafa.
A "voz" não vinha de lugar algum na cabina. Ela vinha de dentro da cabeça. Pensou um pouco e chegou a conclusão de que isso seria fruto da bebida e resolveu relaxar. _Viktor! Nós somos reais! Não somos frutos do álcool em sua mente. Dê uma olhada pela escotilha e nos verá.
Viktor, decidido a participar da sua "própria" ilusão, esticou o pescoço para a escotilha na esperança de ver alguma espécie de "sereia espacial" no lado de fora da MIR.
Mas ele
viu outra coisa... A imagem, apesar de surpreendente, não era estranha, pois Viktor sempre fora um apaixonado por cinema e aquela grande nave que ele via pela escotilha não era novidade. _Tudo bem! Estou vendo aliens pela escotilha! Rapaz! Essa vodka é da boa mesmo! - disse tomando mais um gole.
Viktor começou a rir em escala universal. Mal conseguia respirar. _Raça inteligente?? Nós Humanos?? Acho que vocês é que precisam de ajuda! Eu estava começando a acreditar em você "voz", mas depois dessa... Voltem daqui um milhão de anos. Quem sabe até lá nós já não estaremos civilizados o bastante? Agora com licença que eu vou terminar o que estava fazendo.
Viktor deu uma tremenda sugada com o canudo que sorveu todo o resto de vodka que havia na garrafa. Segundos depois, tudo a sua volta rodava com uma velocidade orbital e a escuridão tomou conta de tudo. _Pronto! Ele desmaiou também!
|