Ficção
Rio/Brasil -
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Paulo Silveira, "Um casal dos infernos"
A agitação reina absoluta no lar dos apaixonados capetas: Rabudo e Rabuda. _ Malditooo! Ô malditozinho! Me ajuda aqui. Já está quase na hora! - grita Rabuda do quarto do casal. _ Já vou! Já vou! - Responde Rabudo, saindo depressa do banheiro, sem terminar, como gostaria, o que estava fazendo. Muito agitado, pergunta à Rabuda: _ Será que agora é pra valer, minha flor de enxofre. Eu já não agüento mais esse vai e vem sem resultado! Capeta-mor nos defenda... _ Como é que eu vou saber, Rabudo? Se dependesse da minha vontade, tudo já estava resolvido, ora essa - responde Rabuda, meio chateada. _ Pois muito bem! Só vou essa última vez! Tenha a infernal paciência! - diz Rabudo, já irritado com toda aquela mexida infrutífera. Rabuda, muito sensível e fragilizada, principalmente pelo desafio que enfrentaria dali a poucos minutos, entristece-se, e lágrimas incandescentes querem rolar pela sua face. Onde andava aquele capeta - para ela - tão carinhoso, tão gentil, tão romântico de séculos e séculos atrás? Um casamento infernal como o deles acabando-se assim, só por uma discussãozinha besta, sem rabo e sem chifre? Seria ciúme? Lembrava-se ela, sem muito esforço, até do primeiro bilhete de amor - secretíssimo - que dele recebera, em versos:
"Minha infernal criaturinha Hoje, ao recordar esses versos - tristes versos -, Rabuda reconhecia que o seu Rabudo não tinha a menor veia poética. Ela não sabia de que gigantesco embornal literário Rabudo tirara tantas palavras estranhas. Pior: nenhuma rima, e ela adorava rima! Ali, rima só de "chifrudo" com "Rabudo" - para ela, lindíssima rima -, mas nem fazia parte desses "versos". Que pobreza! Em todo caso, quando recebera e lera o poema, o que antes era uma raivinha à-toa transformara-se em ódio. Muito ódio. Ódio imortal! Ainda bem que - suspirava a Rabuda - o seu odiado Rabudo não se metera a poeta: bolso vazio e cabeça cheia de rimas, ricas e pobres. Mais pobres do que ricas, com certeza. Na cabeça dele só o belo e cobiçado par de chifres: sinal de muito poder. Iluminado pelo capeta-mor, montara uma indústria de tridentes. Ia de vento em popa com seu negócio: muito dinheiro e muito status . Negócio infernacionalizado: filiais por todos os distritos do inferno e, até, infernogalácticos. Rabudo era o maior exportador do imprescindível artefato, que, em mãos diabólicas, era brinquedo assaz divertido. A veia poética, latente, o ajudara bastante no início do negócio. Rabudo cedera aos caprichos da sua infernal esposa e propagandeara em boa rima:
"Capeta pra ser alegre e sorridente Abaixo, em destacadas letras: Organizações Rabudo. O comercial fizera sucesso. Enquanto era ajudada por Rabudo a entrar no vestido novo - engordara bastante, reconhecia -, Rabuda continuou com suas lembranças. Pensava agora na explosão infernográfica: milhares de capetinhas nascendo a todo instante - capetas natos -, e não paravam de chegar pessoas naquele Inferno dizendo-se, a princípio, inocentes. Desdiziam-se da sorte: era mesmo injustiça de Deus, intriga da oposição e tantas outras mortais desculpas. Mentiras da mais pura e leviana humanidade. Mas, logo todos se acostumavam e assumiam o chifre e o rabo de muito bom grado. Em seguida, eram naturalizados. Por tais razões, tinha muito orgulho do seu Rabudo: que inteligência, que visão! Mais capetas, mais tridentes e mais dinheiro! Um beijo fervente na testa cortou seu pensamento. Rabuda se enternece. Pensa: "Esse é o meu Rabudo, que eu conheço tão bem. Odioso que só ele!". Retribui o beijo com outro mais fervente ainda. Anima-se. Rabuda vai à cozinha e bebe um copo d'água com açúcar, para diminuir a ansiedade e o nervosismo, que tentava disfarçar. Rabudo apaga as luzes e fecha a porta. Saem. Resolvem ir a pé. Caminhar sempre faz bem para os nervos. Saem de braços dados. Rabudo a apoiar Rabuda, todo cuidadoso: "Cuidado com o rabo, cuidado aqui, cuidado acolá, olha o degrau, olha isso, olha aquilo!" Vão andando devagarinho. Rabuda economizando energia. Iria precisar muito dessa energia quando aquele momento tão esperado, por ambos, chegasse. Conversam: _ Nervosa? _ É... um pouco. Rabudo comenta: _ É! Agora que eu estou observando melhor, vejo que você engordou um bocado! _ É verdade! Mas, também, nove meses, quietinha em casa... Logo, logo, estarei em forma de novo. Aguarde e verá! Enfim, chegam ao destino. Uma variedade enorme de capetas: crianças, jovens e velhos. Filas e mais filas. Grande agitação. Sempre era assim naquele local. Um grito e, em seguida, correria infernal em direção ao casal que passava: _ Capetada, a Rabuda Star! Rabudo tenta proteger a esposa-roqueira do assédio encapetado dos fãs. Tenta proteger, também, a todo custo, o vestido dela: bonito e caro. Todo cuidado era pouco. O retorno de Rabuda aos palcos causava furor, fora muito esperado: nove meses Rabuda ficara sem poder cantar, operada de garganta. Para a salvação do casal, em meio ao tumulto, aparecem os promotores do evento. Chegam, desculpando-se por todo o transtorno causado à inigualável inferno-star, a grande, a insuperável Rabuda. A irritação de tanto ir e vir do Rabudo terminara. O show dessa vez ia, realmente, começar... |