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Agustina Bessa Luís,
"O Rato"
A
história que vou contar não se passou comigo,
mas com um amigo meu que vive na Dinamarca. Não
a posso imaginar aqui porque o seu principal
personagem, um desratizador profissional, se não
estudou numa Universidade que se poderia chamar
Andersenrat, assim parecia. Quando eu andava no
colégio, havia à porta da "casinha", ou seja, da
casa de banho, uma freira velhíssima que
compunha terços quebrados e possuía um diploma
de cerzideira de meias atribuído na Suíça. São
países dum grande rigor e eficiência com os
quais não nos podemos comparar. Por isso, Hamlet
não parece dinamarquês, ou então deu-lhe para
destrambelhar.
O meu amigo, a quem chamarei Klaus, deu com um
rato na cozinha. Não esperou para ver se ele
estava de passagem, se era emigrante ou simples
figura de lenda. Chamou o desratizador. Este era
um homem alto, de calças amarelas e que bebia
água a toda a hora. Trazia com ele uma
garrafinha de água e abria-a com muito cuidado,
não fosse sair de lá o génio da lâmpada, ou da
garrafa, melhor dito.
A primeirta coisa que fez foi proibir a Klaus a
entrada na cozinha enquanto decorresse a
operação. Pareciam manobras militares e, como
Klaus punha na estereofonia um compacto da
Tannhäuser, o acompanhamento dava calafrios.
O desratizador espalhou farinha no chão da
cozinha e dois dias depois sabia o peso, a idade
e o tamanho do rato. A farinha deixou escritas
as impressões das quatro patas e o comprimento
da cauda. Pelo cumprimento da cauda soube a
idade do rato, e assim por diante.
Há quem se impressione com a cauda dos ratos,
por ser pelada e parecer um verme, uma espécie
de parasita. Outros não gostam das orelhas, não
sei porquê, decerto pelo tom róseo e sem
penugem. Havia um domador de leões que tinha
medo dos ratos; mesmo enjaulados faziam-no
estremecer. E, no entanto, os seus quatro leões,
pachorrentos, é bem verdade, obedeciam às suas
ordens e temiam-no.
O rato era digno do seu inimigo. Parecia ter
frequentado também um curso de tropas especiais
e conhecia todos os sons e todos os cheiros da
cozinha. Conhecia o pingar da torneira no
lava-loiça, o leve e picante cheiro duma casca
de cebola e o bolor do queijo, que o punha
doido. Porém, não se aproximava da ratoeira
senão até ao milímetro fatal. Voltava para trás,
todo empoado de branca farinha como um pierrot,
e cada vez mais o seu coeficiente de
inteligência crescia. E o do desratizador,
assim, assim.
- Pode crer - disse ele a Klaus - que um rato
sabe da sua cozinha numa hora o que você não
sabe em trinta anos. Sabe o que guarda nos
armários, o que deve escolher e desprezar; sabe
onde estão as tábuas podres, os esfregões
usados, o sabão seco, os cotos de velas que,
quando tem fome, não desdenha comer. Comer e não
saborear. Para saborear há coisas mais
suculentas. Óleos, manteigas, toucinhos, certos
papéis, algum recheio de almofadas e (vejam
bem!) canos de borracha. Um rato pode viver um
ano numa cozinha e só percebermos que ele anda
lá quando o cano da água de lavar a loiça se
rompe e provoca uma inundação. Foi o rato que
lhe abriu um buraco para aspirar e embriagar-se
com os cheiros dos restos, pequenas ervilhas,
gorduras e uma ou outra casca de queijo emental,
ou suíço, ou gouda, que se pegou ao ditoso cano.
O desratizador, passadas duas semanas, disse:
- É um rato que tem uma dieta. Pode ser mais
velho do que eu pensava, porque mantém a linha e
agilidade. Come muitos cereais e não prova o
açúcar.
- Talvez pense que é veneno - disse Klaus, muito
desanimado. Continuava a estar privado da
cozinha e até saía para tomar o pequeno almoço
na pastelaria. Trazia para casa croissants e
fiambre e pãezinhos doces e resistia a
reparti-los com o rato. Começava a antipatizar
com o desratizador.
Um rato não pensa, não precisa de pensar. Faz
melhor que isso, como todo o predador. Um
predador usa os sinais que a natureza lhe manda
de todos os lados, e um rato da cidade, além da
natureza, tem uma rede de informações
prodigiosa. Tudo vibra, range, brilha, escorre,
tanto as pessoas como os objectos fazem
variadíssimos ruídos, cheiram de toda a maneira
e, sobretudo, avisam da sua presença. O rato
sabe logo se a pessoa é aleijada, se usa
bengala, se sofre da bexiga, se usa sapatos ou
chinelos. Sabe que onde se ouve música não há
muito a temer. A música abafa a caminhada do
predador, assim como as grandes famílias são
mais seguras para ele. Quando nós jantávamos
todos vivos à volta da mesa, a falar alto e a
minha mãe a dar ordens e contra-ordens à criada
de sala, havia um ratinho que se pendurava no
galheteiro que estava em cima do aparador e
olhava para nós como se estivesse no teatro.
Parecia deliciado. E decerto se sentia em
segurança, dado que o calor das discussões lhe
transmitia ondas de comovida festa de família.
Sabia que ninguém estava zangado e não ia
acontecer nenhuma loucura como persegui-lo e
derrubá-lo de cima do galheteiro.
- Mas voltando a Klaus: já tinham passado três
semanas e o rato continuava acantonado na
cozinha, a cozinha dele, porque era o seu
território, com a cesta do seu pão, com o seu
papel dos fritos e uma sertã ainda com pequenas
barbatanas de peixe frito. Ele gostava de peixe
frito. Klaus tinha a certeza de que ele fazia
sanduíches de ovo e anchovas. Mostrai-me um rato
que goste de anchovas e digo-vos onde está um
bom europeu.
Aproximavam-se as férias do Verão e Klaus queria
navegar no seu barco que estivera todo o ano no
estaleiro, o que lhe custara uma fortuna. Mas
dava o dinheiro por bem empregado porque gostava
do mar como um rato gosta de queijo. Já não
consigo afastar-me do assunto, o que, numa
história, às vezes, é indispensável. Klaus
convidou a sua ex-mulher a passar uma tarde no
barco, aproveitando o primeiro sol de Junho, e
esqueceu o rato e o desratizador. Quando
voltasse (entretanto fez uma viagem e achou tudo
muito mudado, que é o que acontece a quem faz
viagens) esperava encontrar tudo resolvido e
apenas lhe restava pagar ao desratizador e tomar
conta outra vez da cozinha. Mas as coisas não se
passaram assim. Nada tinha mudado e o rato
continuava a andar por cima da farinha e estava
cada vez mais inteligente.
- Que é que eu faço? - disse Klaus. - Estou tão
aborrecido que ainda me caso outra vez com a
minha ex-mulher, ou vou meter-me no museu dos
vikings a contar os pregos dos barcos um por um.
Acho que o rato e eu acabamos por nos entender,
se você deixar.
- Isto não é possível. - O desratizador não
estava em si de tão contrariado. - Eu tenho que
fazer o meu serviço. É para isso que me pagam.
- Eu pago-lhe na mesma.
- Mas não me pode pagar se eu não fizer aquilo
para que fui chamado. Tenha paciência e espere.
Klaus, como não podia servir-se da cozinha e
estava cansado de comer arenque fumado, aceitou
um convite da ex-mulher para jantar lá em casa.
Primeiro duas vezes por semana, depois todos os
dias. Isto deu como resultado reatarem as
relações antigas e, de bons amigos que eram,
tornaram-se ainda melhores. Já não se lembravam
porque se tinham separado; provavelmente eram
muito novos quando se casaram e não faziam outra
coisa senão encontrar defeitos um no outro. Era
um jogo do empurra, e aquilo não parecia nada
bem. Mas quando se trata de amor, cada um faz o
que quer porque se pensa que o amor, como na
guerra, permite tudo. Ora, até o pacto de
Genebra estabelece que na guerra nem tudo é
permitido. Mas como não há um pacto de Genebra
para o amor, cada um faz como entende.
O tempo em que Klaus esperou a morte do rato foi
um tempo de razoável felicidade. Ele e a
ex-mulher tornaram-se companheiros inseparáveis
e até arranjaram emprego na mesma zona da
cidade. Aqui tenho que dizer que no Brasil não
se diz zona por ser o domínio das prostitutas e
gente assim. Mas aqui pode dizer-se zona à
vontade, e bicha e veado, que ninguém fica a
olhar para nós como se estivéssemos a cometer
uma terrível indiscrição.
Entretanto, vou-vos dizer quem era Klaus, o meu
amigo. Era arquitecto e tinha saído de Portugal
quando da guerra das colónias; era, portanto, um
emigrante político. Era um pacifista, como se vê
pela história do rato a que chegou a dar um nome
e a querer que o desratizador falhasse nos seus
intentos. Mas o desratizador até aos domingos ia
ver o que se passava na cozinha de Klaus.
- O rato está mais gordo, vê-se pelo rasto que
deixa na farinha. E também está mais esperto.
Bebe a água da torneira e põe-se debaixo para
apanhar a gota que cai de quarenta em quarenta
segundos. Às vezes, ele vai inspeccionar o
armário das provisões e quarenta segundos depois
lá está para receber a gota de água, bem
certeira, na boca aberta.
- É um prodígio - disse Klaus. E a ex-mulher
repetiu:
- É um verdadeiro prodígio. - Tinha amadurecido
e sabia que repetir o que um homem diz é a chave
do sucesso no casamento. Agora arranjava-se mais
e penteava-se no cabeleireiro, de vez em quando,
e punha rolos no cabelo fino, dum loiro
esbranquiçado. Klaus lembrou-se: tinha-se
separado por causa da cor do cabelo dela.
Parecia manteiga fervida. Mas agora não se
importava. Falavam muito um com o outro, do rato
e doutras coisas. Ela tinha uma graça que Klaus
nunca suspeitara.
- Klaus - disse ela (o nome dele era Cláudio
Pinto, mas mudara para Klaus) - podíamos ir para
a neve, no Inverno.
- Mas neve é o que não falta aqui - disse Klaus,
muito surpreendido e assustado porque o tempo
das viagens já ia longe. Agora preferia ouvir
música e ficar quieto.
- Pois sim. Mas não temos montanhas. A neve sem
montanhas não parece neve. Suja-se logo e
torna-se em gelo escorregadio. Eu gostava de ver
a neve nas montanhas e os pinheiros carregados e
os coelhos a aparecer nas tocas num dia de sol.
A ex-mulher estava a ficar muito romântica, e
Klaus deu por isso. Expusera-se demais e tinha
medo do que podia acontecer. Faltava-lhe a
esperteza do rato que sabia parar a tempo, um
milímetro antes da ratoeira. Pensando nisso,
voltou a casa e espreitou para dentro da
cozinha. Ali estava um efeito de neve muito
confortável, com toda a ranca farinha espalhada
pelo chão. E as patinhas do rato estavam
impressas por cima como se fosse uma forma de
escrita. Talvez fosse uma forma de escrita, ele
era bastante inteligente para isso. Sentiu
admiração por ele. "É um rato como deve ser" -
pensou.
Isto era um grande elogio. Entretanto, a
ex-mulher de Klaus, que tinha dois filhos dum
primeiro casamento, juntava dinheiro e dizia:
- É para quando formos velhos. Os velhos
precisam de ter dinheiro, senão ninguém quer
saber deles.
Toda a gente tinha regalias sociais, havia
hospitais para curar as pessoas e outros para
convalescer. Mas a ex-mulher continuava a dizer
que era preciso ter dinheiro para quando a
velhice chegasse. Sentia-se sempre insegura, por
mais cartões de crédito que tivesse, e Klaus
aborrecia-se com isso. Um dia parou diante da
estátua de Kierkegaard, que devia ter sido um
homenzinho enfezado, e pensou que ele se parecia
com o rato. Não um rato de laboratório mas de
cozinha ou, se quiserem, de biblioteca. Como
escapara ao casamento, intitulando-se um sedutor
cheio de manhas, era duma esperteza de rato.
Klaus olhou para ele, no entardecer escuro da
cidade, e lembrou-se que ele morrera no mesmo
dia em que se lhe acabou o dinheiro.
- Meu bom Soren, és mesmo um tipo com quem se
pode contar. Parece que a sobrecasaca não te
serve, mas é só porque és meio corcunda e gostas
de parecer ainda mais corcunda- A tua sedução
está em saberes ser pior do que és. Como o rato
da minha cozinha. Acho que vou voltar para lá.
Mas a ex-mulher não deixou. Estava cada vez mais
prestável e os filhos dela ajudavam-na a ser
prestável. Tratavam Klaus por pai e deram-lhe
uma carteira em pele de lagarto pelo Natal. Ele
fingiu-se agradecido, mas é preciso muito mais
para um homem ficar agradecido. Ia para o fiorde
e o vento soprava na água como se fosse
derrubá-la. Não se derruba a água, ela não tem
pés nem raízes: todavia, sustenta-se como se os
tivesse.
Um dia, desratizador encontrou-o na rua e foi
falar com ele. Estava entusiasmado, ainda que
isso só se percebesse porque o lado esquerdo do
bigode tremia. Ele disse:
- Tenho uma boa notícia para si. Estive ontem na
sua cozinha e o rato estava morto. Agora já me
pode pagar.
- Como morreu? - Klaus sentiu uma dor no
estômago e outra na perna direita. As emoções
não escolhem lugar. Morreu com veneno ou foi
electrocutado?
- Nada disso. E, sabe? Não acasalava, e por isso
não trouxe uma fêmea com a ninhada. Eu não diria
que era um rato velho, mas talvez fosse. Tinha
já os bigodes brancos. De qualquer modo, deu-me
que fazer. Há dois anos que estava na sua
cozinha e não deixou pedra sobre pedra. Nem um
grão de arroz. Tinha uma dieta muito
equilibrada, apesar de tudo. Estava manco,
talvez uma artrose, talvez isso. É preciso
avisar os vizinhos.
Klaus ficou desolado. Tinha casado com a
ex-mulher e vivia na casa dela com os filhos
dela que pareciam duas morsas e que continuavam
a chamar-lhe pai. Não podia imaginar Kierkegaard
a viver com duas morsas na mesma casa. Que
esperto que ele tinha sido! Andou durante um
tempo pensativo e um dia em que, por acaso, viu
o desratizador num centro comercial,
perguntou-lhe:
- Como é que eu podia comprar um rato?
Ele tirou do bolso uma agenda preta, dessas que
têm junto uma máquina de calcular, e folheou-a
com profunda atenção:
- Só daqui a três anos é que tenho um rato
disponível.
- Como? - disse Klaus, estupefacto.
- Não imagina a quantidade de homens que querem
um rato na cozinha. - O desratizador coçou o
queixo e disse: - Homens como você, que me
chamaram para matar um rato e que foram vítimas
das consequências, as consequências, senhor
Klaus! É disso que eu vivo e não de matar ratos.
É um ofício mal pago e que não dá nem para a
água. - Tirou a garrafinha do bolso e bebeu um
trago. Tapou-a rapidamente, não fosse sair de lá
um génio. E não se sabe o que seriam as
consequências.
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