Ficção

 

Rio/Brasil -

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István Örkény,

"Matadouro"
Tradução de Ágnes Jancsó C. Lopes

 

Primeiro levaram-nos a um miradouro, de onde podíamos ver o panorama todo. Depois admirámos o pátio renascentista do palácio presidencial, de onde fomos conduzidos a uma nascente de águas termais, onde, encorajados pelo guia, provámos a água um pouco ácida, mas revitalizante da fonte. Entrámos outra vez para o autocarro. O altifalante louvava agora a beleza do Centro da Cidade, e de seguida parámos na Galeria Nacional. Vi a colecção de esculturas até ao fim, mas depois fiquei com dores, e parei. Os outros viram uns belos Breughels e Rembrandts.


"E agora", anunciou o altifalante, "vamos visitar uma das instituições mais modernas da cidade, o matadouro. Os animais são abatidos de forma tão humana, com base em princípios tão nobres, que não só senhoras sensíveis, mas também crianças o podem ver sem problemas."


Conduziram-nos por pátios imensos. Tudo estava inundado de luz, e música suave tocava entre paredes de mármore, que não era perturbada nem por um mugido, nem por um guincho. O circuito levava-nos da zona de pesagem até ao fumeiro dos presuntos, e tudo estava longe daquilo que esperara. Não vi animais a empacar, a recuar, a resfolegar, nem jovens carniceiros robustos de pernas afastadas a baixar os pesados cutelos. As vacas, os porcos e as ovelhas saíam de corredores brancos como a neve para uma grande sala onde, sem quaisquer choques eléctricos, nem drogas ou gases venenosos, começavam por ficar sonolentos, se deitavam, e assim passavam do sono para a morte, tão suavemente como um barco deslizando do estuário de um rio para as águas paradas de um lago.


Chamei de lado o nosso guia.
- Queria pedir-lhe um favor - disse.
- Infelizmente não pode ser - respondeu.
- Tenho boas razões - disse eu.
- Todos têm boas razões - disse ele.
- Recompensaria o seu favor - disse eu.
- Já me ofereceram fortunas - disse ele.
- Mas o gado tem direito? - perguntei.
- Lamento - disse - é expressamente proibido

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