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Saki
"Esmé"
Tradução de José Lima
- Todas as histórias de caça são
iguais - disse Clovis. - E todas as histórias de corridas de cavalos
também são iguais, e todas as…
- A minha história de caça não se parece em nada com qualquer outra que
tenha ouvido - disse a Baronesa. - Passou-se já há bastante tempo, tinha
eu vinte e três anos. Nessa altura não estava separada do meu marido;
está a ver, nenhum de nós se podia dar ao luxo de pagar ao outro uma
pensão. Digam o que disserem os provérbios, são mais os lares que a
pobreza mantém unidos do que aqueles que destrói. Mas caçávamos sempre
com matilhas diferentes. Nada disto tem a ver com a história.
- Ainda não chegámos ao ponto da concentração. Suponho que houve uma
concentração dos caçadores - disse Clovis.
- Claro que houve uma concentração - disse a Baronesa. - Estava lá toda
a gente do costume, e em particular Constance Broddle. Constance é uma
daquelas raparigaças de boas cores que combinam às mil maravilhas com um
cenário de Outono ou com as decorações de Natal na igreja. "Pressinto
que está para acontecer alguma coisa horrível", disse-me ela, "Estou
pálida?"
Estava tão pálida como uma beterraba que tivesse recebido más notícias
de repente.
"Está mais bonita do que o normal", disse eu, "mas isso para si é tão
fácil." Antes de ela ter atingido o exacto alcance do comentário, já
começara a função; os cães tinham descoberto uma raposa escondida no
meio de umas giestas.
- Eu já sabia - disse Clovis. - Em todas as histórias de caça à raposa
que ouvi havia sempre uma raposa e moitas de giesta.
- Constance e eu tínhamos belas montadas - continuou a Baronesa
serenamente - e não tivemos dificuldade em nos mantermos na primeira
leva, embora fosse uma corrida bastante puxada. Mas lá para o fim
devemos ter seguido um caminho um pouco independente, porque nos
perdemos dos cães, e vimo-nos a andar à toa aos tropeções a milhas de
qualquer sítio. Era uma coisa exasperante, e a minha boa disposição
começava a ceder aos poucos, quando ao abrir caminho por uma sebe
complacente deparámos com o alegre espectáculo dos cães em grande
berraria num valado mais abaixo.
"Lá vão eles - gritou Constance, e acrescentou num sobressalto: - Mas
que diabo de caça será aquela?"
Não era, de certeza, nenhuma raposa deste mundo. Tinha o dobro do
tamanho, tinha uma cabeça curta e feia, e um pescoço grosso enorme.
"É uma hiena - gritei. - Deve ter fugido do Parque de Lord Pabham."
Nesse momento o bicho perseguido virou-se e enfrentou os perseguidores,
e os cães (eram só uns seis pares) ficaram em semicírculo e com um ar
aparvalhado. Era evidente que se tinham separado do resto da matilha na
pista daquele cheiro estranho, e não estavam muito certos de como lidar
com a presa agora que a tinham apanhado.
A hiena saudou a nossa chegada com inequívoco alívio e manifestações de
amizade. Provavelmente estava habituada a uma invariável amabilidade por
parte dos humanos, ao passo que a primeira experiência com cães lhe
deixara uma má impressão. Os cães pareciam mais embaraçados do que nunca
enquanto a presa exibia a sua súbita intimidade connosco, e o ténue
ressoar de uma trompa ao longe foi tomado como o desejado sinal para uma
partida discreta. Constance, eu e a hiena ficámos sós no crepúsculo que
descia.
"Que vamos fazer?", perguntou Constance.
"Não há como você para fazer perguntas", disse eu.
"Bem, não podemos ficar aqui a noite toda com uma hiena", replicou ela.
"Não sei qual é a sua ideia de conforto," disse eu, "mas não tenciono
passar aqui a noite toda, mesmo sem uma hiena. Pode não ser um lar
feliz, o meu, mas pelo menos tem água quente e fria, e serviço
doméstico, e outras comodidades que não encontraríamos aqui. O melhor
que temos a fazer é seguir para aquele renque de árvores à direita;
tenho a impressão de que a estrada de Crowley fica logo a seguir."
Trotámos devagar seguindo o trilho apagado de uma carroça, com o bicho
seguindo alegremente atrás de nós.
"Que raio havemos de fazer com a hiena", veio a pergunta inevitável.
"Que é que se costuma fazer com as hienas?", perguntei mal-humorada.
"Nunca tive nada a ver com nenhuma até agora", disse Constance.
"Bem, eu também não. Se ao menos soubéssemos de que sexo é podíamos
pôr-lhe um nome. Talvez lhe pudéssemos chamar Esmé. Dá para as duas
hipóteses.
Ainda havia luz suficiente para distinguirmos as coisas à beira do
caminho, e a nossa atenção entorpecida teve um sobressalto de alerta
quando deparámos com um miúdo cigano seminu que andava a apanhar amoras
numas moitas rasteiras. A súbita aparição de duas amazonas e uma hiena
puseram-no em fuga aos berros, mas seja como for dificilmente poderíamos
obter qualquer informação geográfica útil de tal fonte; mas havia uma
probabilidade de virmos a encontrar um acampamento de ciganos pelo
caminho. Esperançadas, seguimos caminho, mas sem que nada acontecesse
por mais quilómetro e meio uma milha ou coisa assim.
"Pergunto-me o que andaria uma criança a fazer ali", disse Constance
passados instantes.
"A apanhar amoras. Obviamente."
"Não me agradou o modo como berrava", continuou Constance, "parece que
ainda tenho o choro dele nos ouvidos."
Não trocei das fantasias mórbidas
de Constance; para dizer a verdade, a mesma sensação de ser perseguida
por um persistente gemido aflito, tinha-se insinuado nos meus nervos já
exaustos. A precisar de companhia, chamei por Esmé, que tinha ficado
algures para trás. Com uns quantos saltos enérgicos pôs-se a par de nós,
e depois desapareceu à nossa frente.
O acompanhamento de gemidos estava explicado. O ciganito ia firmemente,
e imagino que dolorosamente, aferrado pelas presas da hiena.
"Santo nome de Deus!" gritou Constance, "que raio havemos de fazer? Que
vamos fazer?"
Estou perfeitamente convencida de que no Juízo Final Constance há-de
fazer mais perguntas do que qualquer dos Serafins jurados.
"Não podemos fazer nada?", insistia ela lacrimejante, enquanto Esmé
trotava ligeira à frente dos nossos cavalos cansados.
Pelo meu lado fazia tudo o que me ocorria no momento. Vociferava,
ralhava, adulava, em inglês, francês e em linguagem de couteiro; fazia
gestos inúteis no ar com a minha chibata esfiapada; atirei ao animal a
caixa das sanduíches; realmente, não sei que mais poderia ter feito. E
lá continuámos a arrastar-nos no crepúsculo que se adensava, com a
silhueta desengonçada arrastando-se à nossa frente, e a toada de uma
música lúgubre pairando nos ouvidos. Subitamente Esmé mergulhou numas
moitas espessas ao lado do caminho, onde não a podíamos seguir; o gemido
cresceu para um guincho e depois calou-se completamente. Passo sempre
depressa esta parte da história, porque realmente é bastante horrível.
Quando o bicho se juntou de novo a nós, depois de uma ausência de alguns
minutos, havia nele um ar de compreensão resignada, como se soubesse que
tinha feito uma coisa que desaprovávamos, mas que sentia como
perfeitamente justificável.
"Como pode permitir que essa fera esfaimada trote a seu lado?",
perguntou Constance. Parecia-se mais do que nunca com uma beterraba
albina.
"Em primeiro lugar, não posso impedi-lo", disse eu. "E em segundo lugar,
pode ser muitas coisas, mas esfaimada duvido que seja neste momento."
Constance estremeceu. "Acha que o pobrezinho sofreu muito?", veio mais
uma das perguntas desnecessárias dela.
"Tudo indica que sim", disse eu. "Por outro lado, é certo que pode ter
estado a chorar por pura birra. As crianças às vezes são assim."
Era quase noite cerrada quando de repente emergimos em plena estrada. O
clarão de uns faróis e o chiar de um motor passaram por nós
simultaneamente a uma proximidade inquietante. Um baque e o som agudo de
um guincho seguiram-se um segundo depois. O carro parou, e quando dirigi
a montada para o local deparei com um homem novo curvado sobre uma massa
escura imóvel estendida na berma.
"Matou a minha Esmé", exclamei azeda.
"Lamento imenso", disse o jovem. "Sou criador de cães, e compreendo como
se deve sentir. Farei o que puder para a compensar."
"Faz favor de a enterrar imediatamente", disse eu. Acho que tenho o
direito de lhe pedir isso."
"Traz a pá, William", ordenou ao chauffeur. Via-se que funerais
improvisados nas bermas das estradas eram contingências que estavam
previstas.
Levou algum tempo a cavar uma campa suficientemente grande. "Sim senhor,
um sujeito respeitável", disse o cavalheiro, ao mesmo tempo que o
cadáver era rolado para a vala. "Dá a impressão que devia ser um animal
de bastante valor."
"Ficou em segundo lugar, em Birmingham, na categoria de cachorros o ano
passado", disse eu com desembaraço.
Constance fungou ruidosamente.
"Não chore, querida", disse eu numa voz entrecortada. "Foi tudo
rapidíssimo. Não deve ter sofrido muito."
"Por favor", disse o jovem num tom sentido, "tem de me deixar fazer
alguma coisa como forma de a compensar."
Recusei delicadamente, mas como ele insistia acabei por lhe dar a minha
morada.
Naturalmente, não dissemos palavra sobre os episódios do princípio da
noite. Lord Pabham nunca anunciou o desaparecimento da sua hiena; há um
ano ou dois um animal estritamente frutívoro saíra do parque dele e
vira-se obrigado a pagar indemnizações em onze casos de acidentes com
ovelhas e praticamente repovoara as capoeiras dos vizinhos; por isso,
uma hiena à solta era capaz de equivaler a qualquer coisa à escala de um
subsídio do Governo. Os ciganos mostraram-se igualmente discretos quanto
ao desaparecimento do filhote; não me parece que nos grandes
acampamentos eles saibam, mais filho menos filho, quantos têm ao certo.
A Baronesa fez uma pausa com ar pensativo, e depois continuou:
Mas a aventura teve uma sequela. Recebi pelo correio um pequeno alfinete
de diamantes amoroso, com o nome de Esmé gravado num raminho de alecrim.
Por acaso, também, perdi a amizade de Constance Broddle. Está a ver,
quando vendi o alfinete recusei-me com toda a razão a dar-lhe qualquer
parte do lucro. Fiz notar que a parte Esmé do caso tinha sido inventada
por mim, e que a parte hiena pertencia a Lord Pabham, se realmente a
hiena era a dele, coisa de que, evidentemente, não tenho nenhuma prova.
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