Ficção
Rio/Brasil -
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Tavares Dias
Bandolo e Montoeira
A sensação de estar voando é
espetacular. Nunca na vida sentiu tanta leveza, tanta soltura, tanta
liberdade. Nem sentiu a decolagem, só se dá conta do enquanto, do
mágico, do encanto, do mato lá embaixo, do movimento dos jogadores no
campinho, a charanga da torcida, Margarida segurando com as duas mãos o
vestido amarelo que o vento ameaça suspender.
Procurou concentrar-se no vôo, arranjar uma posição mais confortável. Logo recordou o sofá da sala de Margarida. O velho dela, na outra sala, de vez em quando esticava o pescoço, tossia cada vez que o silêncio dos namorados acionava um alarme em sua cabeça. Mãos furtivas escapavam do flagrante anunciado. Só depois das dez o coroa deixava a cadeira de balanço e ia tomar banho, preparar-se pra dormir. Margarida e Bedurri tinham então vinte, trinta minutos de maior intimidade. Às dez e meia o despertador do velho tocava. Não havia o que dizer, era se ajeitar, despedir-se e sair.
E na véspera daquele vôo a situação
enferrujara. Quando soou o despertador, a discussão entre os namorados
pegava fogo. Em dois anos de namoro, Margarida contabilizava quatro
finais de semana em que tivera o namorado só pra si. Duas festas de suas
amigas de colégio, uma excursão a uma praia com muitas dunas, e um
domingo inteiro na piscina de um clube campestre onde o velho dela era
sócio. No mais era a bola, o samba. Uma vez por mês, a macumba.
As imagens durante o vôo eram como um filme onde a velocidade às vezes aumentava até complicar sua percepção e depois se desenrolavam lentamente, com clareza e detalhamento maiores que a das telas de cinema e TV. E Margarida sempre lá, inicialmente vibrando, na beira do campo, junto com as colegas, incentivando o namorado, vibrando com suas fintas de corpo, gritando quando ele disparava com a bola dominada, com seus longos e precisos lançamentos, seus freqüentes gols de falta com barreira, da entrada da área. Tinha todas as suas medalhas, seus troféus de artilheiro. Era pra ela que corria, na comemoração do gol.
Só mesmo por muita pressão dos amigos e de suas namoradas foi que Margarida concordara com a ida de Bedurri ao jogo, naquele dia, e também resolvera acompanhá-lo mais uma vez. A última, dissera. A situação tava ficando tão difícil que Bedurri pela primeira vez pensou em deixar de jogar futebol aos domingos. Assustou-se, de tão novo que o pensamento era. Precisava pensar muito naquilo.
A visão de um urubu em vôo tranqüilo a uns cem metros de distância disparou outro filme na cabeça de Bedurri. Lembrou-se do dia em que Nuvem Negra, que todos na sua turma tinham como a pessoa mais carregada, pessimista e mal-humorada do mundo, lhes perguntara se sabiam por que aquelas aves não se contaminavam com tanta porcaria que comiam. Reviu-se numa roda, no bar da esquina, onde o amigo explicava que os urubus voavam alto para que o ar rarefeito lá de cima matasse os microorganismos ingeridos junto com a carniça. Urubu planando lá no alto acabou de comer, garantia o amigo, professoral. Geralmente Nuvem Negra o irritava, com seu astral sempre pra baixo, mas naquele dia Bedurri gostou da conversa, ficou um tempão imaginando o funcionamento do sistema imunológico dos urubus.
Mas o filme principal era outro. Naquele dia, quando Paletó Velho lhe atirou a 10, no vestiário, Bedurri, o mais fominha do grupo, sentiu vontade, pela primeira vez, de pedir pra não ir pro jogo. O time tava bem, sobrando na tabela, e no banco tinha uma meninada precisando pegar ritmo de jogo. Acabou desistindo, já sabia o que o velho treinador ia dizer. É importante ganhar bem, disputar artilharia, manter a noção de conjunto. Em time que tá ganhando não se mexe. Sem contar que entre o treineiro e as namoradas dos jogadores o clima também já tava perto de derramar. Melhor ir pro jogo. Pegou o material, caladão, e foi se vestir num canto do vestiário.
Naquele dia, até o cheiro do
ungüento do massagista aborreceu Bedurri. Normalmente, era um de seus
odores preferidos, lembrava a erva-de-santa-maria que a Vó Normélia de
vez em quando lhe aplicava num emplastro, misturada com saião e sal, pra
ajudar a curar algum inchaço mais renitente na coxa, na panturrilha, no
tornozelo. Então era como se a imagem da Vó que tanto amava e de quem
recebia tantos conselhos importantes entrasse com ele em campo. Menos
naquele dia.
Outra seqüência nas imagens no
vôo-filme que passava na cabeça de Bedurri, em sua primeira experiência
aérea, era da entrada do Poca e Rasga em campo. Camisas, calções e meias
azuis, uma faixa branca em diagonal na camisa. Uniforme estalando de
novo. Um foguetório medonho, a charanga. No fim da fila, os dois
zagueiros. Dois armários, um ruço e outro negro, logo identificados por
Gasparzinho, que já tinha morado na localidade: Bandolo e Montoeira.
Bedurri não conseguiu evitar um friozinho na barriga.
Com cinco minutos de jogo, os dois
já tavam na pele de Bedurri. Gracinha, boneca, puxão no cabelo comprido,
valia tudo. Bandolo deu-lhe uma pisada no pé, com a bola lá na outra
área. Dói demais, os olhos se enchem d´água. Pezinho de moça vai levar
pra casa hoje, de presente, um lindo par de muletas.
- Cala a boca e joga sua bolinha,
senão vai mais cedo pro chuveiro.
Barreira colocada, o goleiro do
outro lado, a súbita intuição mandou bater do jeito mais difícil. Uma
ginga de corpo e o goleiro partiu pro canto, na certeza de que a bola ia
por cima da barreira. Imobilizado, sem condição de inverter o movimento
e voltar, ficou estático, pregado no chão, torcendo, enquanto ela
descrevia um largo arco, como se fosse sair. O efeito tinha pegado de
jeito. Foi fechando, fechando. Entrou lá no outro canto, depois de bater
na junção dos dois paus da trave, na orelha da girafa, lá onde a coruja
dorme. Um a um.
Quase quarenta minutos. A torcida
urra, xinga, joga pedras, ameaça invadir o campo, promete porrada. O
adversário sufoca, sufoca. Paletó Velho, lá fora, já quase sem voz,
continua gritando e gesticulando o tempo todo.
A sombra cresce, é imensa, cobre o
sol. A sensação de estar voando é espetacular. Nunca na vida sentiu
tanta leveza, tanta soltura, tanta liberdade. Nem sentiu a decolagem, só
se dá conta do enquanto, do mágico, do encanto, do mato lá embaixo, do
movimento dos jogadores no campinho, a charanga do adversário, Margarida
segurando com as duas mãos o vestido amarelo que o vento ameaça
suspender.
Busca na memória, quer se situar no tempo. Tenta falar, não querem que fale. Precisa saber, insiste, pede o inventário dos estragos. O médico relata, devagar, profissional.
Cabeça:
cinco pontos no supercílio, hematoma na fronte,
lado direito. Braço direito luxado, fraturas em
duas costelas. Edema no adutor da coxa.
Gentilezas da cabeça de Bandolo, dos cotovelos
de Bandolo, do joelho de Bandolo. Contusões e
escoriações generalizadas, da infeliz
aterrissagem. Todo cortado de mato. Considerando
a altura do vôo relatado pelos amigos, até que
não está mal. Se fosse mais pesado, um pouco
mais velho ou tivesse caído de cabeça, sim,
poderia ter morrido. Teve muita sorte.
Tavares Dias - Brasil |